domingo, 26 de maio de 2013

Flor do Coqueiro


Era uma garota, ainda. Chegando em casa, numa tarde, meus irmãos estavam no quarto compondo uma música. Uma deliciosa rotina na casa da minha mãe - conversas e canções. Só que este dia foi especial, porque a música que eles estavam compondo, ainda sem letra, me emocionou de uma maneira que não consegui controlar. Tive que sair de perto pra não chorar na frente deles. Passado algum tempo eles chegaram em casa com o disco que haviam gravado, na época um LP. Minha grande surpresa foi ver que aquela música, que tanto me emocionou, se chamava Flor do Coqueiro (Pita). Pita, gente! Pita sou eu. Meu apelido de infância que veio de Pituíba (pequena), coisa que sempre fui, sou e serei. Imagina minha alegria!
A música, composta e lindamente cantada pelo Clésio, vinha acompanhada de um belíssimo arranjo regado à sanfona. A letra, feita pelo Clodo, é a seguinte:

                                                                Foto extraída do Google
Flor do Coqueiro (Pita)


Não olha pra trás
pra não ver a distância
Aonde você vai
a estrada não cansa
Faz como a flor do coqueiro
que se ilumina sozinha
e quanto mais fica escuro,
mais brilha
Olha a água na fonte
que brotou cristalina
Olha que essa palmeira
cresceu pra ser menina
Faz como a flor do coqueiro
que se ilumina sozinha
e quanto mais fica escuro,
mais brilha
Eu andei, por andar,
pelas montanhas e rios
Só encontrei sua marca
Imagem e semelhança tua
E falei, por falar
Fui pregador no deserto,
mas sempre disse a verdade,
verdade a gente não insinua

Esta letra se tornou um mantra pra mim. Muitas vezes lembrei dela e recobrei o ânimo e a coragem para seguir  em frente. Vejo nesta música uma espécie de conselho de pai, um pai amoroso. Meu pai morreu quando eu tinha cinco anos, mas foi muito bem representado pelos meus irmãos Clodo, Climério e Clésio. Sempre tive muito orgulho deles, não só por serem irmãos maravilhosos,mas pelo grande talento de cada um. Com certeza serão lembrados pela imensa colaboração dada à música brasileira de qualidade.
Quando as coisas ficarem difíceis e tudo parecer escuro e sem saída, vale como conselho estas palavras que recebi em forma de canção:

"Não olha pra trás, pra não ver a distância, aonde você vai a estrada não cansa..."

Anita Safer

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Simão de Miranda: Um grande mestre

Foto: Arquivo pessoal

Conheci Simão de Miranda em uma Oficina Literária que fiz há muitos anos atrás. Sua maneira leve, didática e divertida de abordar a criação literária me conquistou de cara. A partir daí comecei a acompanhar seu trabalho. O primeiro livro que li foi Manual de Jogos para Salas de Aula. Atividades maravilhosas que vieram a ser muito úteis quando comecei a fazer um trabalho com teatro infantil. Em seguida tive a honra de constar entre as pessoas a quem ele dedicou um dos livros. Quase morri de emoção!
Atualmente são 37 livros publicados. Infantis, didáticos, poéticos. Na bagagem também possui diversos prêmios, tendo sido premiado, inclusive, no exterior. Para Simão escrever é como respirar, uma necessidade vital. Esta paixão é o que o move. A fé  em uma educação que possibilite o crescimento do aluno também está sempre presente; educação onde o estudante seja munido de ferramentas para desenvolver suas potencialidades, valorizando sua autoestima, seus traços pessoais.
Atuando na EAPE, Simão de Miranda oferece cursos e palestras para professores. É o mestre dos mestres. Quando não está no exercício de suas funções na Secretaria de Educação, não carrega pedras, carrega palavras e as distribui generosamente pelas páginas de seus livros, pelas redes sociais ou por onde quer que passe. São textos ternos e motivadores, como este:

"Eu preciso de uma escola
que não seja enfadonha.
Minha escola nem precisa ter paredes,
só precisa ser risonha"

Uma escola feliz. Onde alunos e professores sejam valorizados. Que possua recursos humanos e materiais para oferecer à população uma escolarização digna e de qualidade. Uma escola viva, onde o futuro possa ser construído. É um sonho, não é? É o sonho de Simão de Miranda, o meu e certamente o de vocês.
Respondendo a esta ânsia interna, Simão segue escrevendo; um novo livro já está a caminho. O novo filho, como ele mesmo diz, chama-se Oficina de Ludicidade na Escola, contendo 60 jogos que contribuem para o desenvolvimento cognitivo, criativo e psicomotor, além de servir como motivação e socialização da criança.
O lançamento acontecerá no dia 07 de junho, às 19h30, na Livraria Cultura do Shopping Casa Park. É uma ótima oportunidade para você conhecê-lo. Eu pretendo estar lá, tietando como sempre, porque ele merece.

Anita Safer

terça-feira, 21 de maio de 2013

Tem "cabeamento" uma coisa dessas?

Não gosto quando fico recebendo ligações de operadoras de telefonia, bancos e outros lugares, oferecendo serviços. Penso que quando a gente quer uma coisa, corre atrás. Mas acho que este tipo de abordagem deve funcionar pra eles, porque não param de ligar. Acontece que um dia desses, por ironia do destino, recebi um telefonema da operadora que presta serviço de internet na minha casa e deixei a moça falar. Normalmente corto a conversa bem no começo, mas desta vez a deixei abrir o coração. Eu devia estar entediada, com vontade de conversar, sei lá. Eles queriam me oferecer o seguinte pacote: Aumentariam a velocidade da internet e instalariam a TV paga por apenas 24 reais a mais na fatura. Achei interessante. Nem tanto pela velocidade da internet, mas pela TV. Adoro filmes e seriados. Apesar de saber que a maioria dos canais que eles colocam você não assiste nunca. Tem canal que fica 24 horas falando de cavalos, haja assunto! Mesmo assim achei que valeria a pena, vai que resolvo comprar um haras. Topei.
O técnico da operadora chegou lá em casa e perguntou onde era o ponto. Que ponto? Ponto de ônibus? Mal chegou e já ia embora? Brincadeira. Mostrei pra ele que a TV onde instalaria o ponto seria no meu quarto. Ele disse que teria que ser feito um cabeamento da sala até o quarto. Este serviço era feito por outro técnico, eu teria que ligar pra operadora e solicitar o cabeamento. Ok. Liguei para a operadora e solicitei o tal do cabeamento. A moça disse: "Senhora, vamos agendar a visita do técnico para tal dia". Beleza. No dia da tal visita chega o técnico. "Onde está o ponto?". Expliquei que antes precisava ser feito o cabeamento. Ele falou: "É, tem mesmo. Eles bem que me falaram. Mas como eu posso fazer o cabeamento se eu venho de moto? Como eu ia trazer o material?". O que será que ele queria dizer com isso... Eu teria que comprar um carro pra ele? Sei lá. Ligo novamente pra operadora e explico que eles não podem mandar um técnico motoqueiro pra fazer o cabeamento porque ele não tem como trazer o material... "Senhora, vamos agendar a visita do técnico para tal dia". Certo. Zerinho Um... Pronto, decidimos quem ficaria em casa para receber o tal técnico. Ele aparece no sábado e neste dia não é possível fazer o serviço, porque teria que furar a parede e os condomínios não autorizam serviços barulhentos nos fins de semana. Chegando em casa fico sabendo que o serviço não foi feito e que terei que ligar novamente para a operadora para agendar outro dia para o tal do cabeamento. Ligo e friso que preciso do técnico para fazer o CABEAMENTO e que ele não pode ser motoqueiro e nem pode ir no sábado. "Senhora, vamos agendar a visita do técnico para o dia tal". No dia tal estou descendo do ônibus quando meu celular toca. É a mulher da operadora dizendo que o técnico não pode instalar o aparelho porque não tinha sido feito o cabeamento. CLARO QUE O CABEAMENTO NÃO FOI FEITO! Quando expliquei pra ela que havia solicitado o técnico justamente para este serviço, ela me disse que não poderia resolver pra mim, que eu teria que ligar pra operadora e agendar a visita. Não acreditei. Chegando em casa, liguei pra operadora, falei pra atendente que um dia eles me ligaram oferecendo um serviço e eu escutei pacientemente, agora seria a minha vez de falar. Falei, menino, mas falei muito. Depois de tanto reclamar ela perguntou: "Senhora, pra que dia a senhora quer que eu agende a visita?". Eu, brava que nem siri na lata, disse que não queria mais negociação nenhuma com eles. Não queria megas, não queria TV, nem canal de cavalos.
Negócio desfeito, fiquei com o coração partido. Já estava curtindo a ideia da tal da TV por assinatura. Por que eles oferecem um serviço que não querem prestar? Por que fugi das minhas regras e fui ouvir a ladainha desse povo que oferece serviços? Eis o que não sei...

Anita Safer

sábado, 11 de maio de 2013

Procurando a Memo...

Foto: Érica
Desenhos animados são maravilhosos. Não todos, mas muitos deles. Neles vemos personagens que retratam traços de nossa personalidade, só que apresentados de forma "engraçadinha". Quem nunca se sentiu como o Coyote, que planeja de mil formas conquistar seu objetivo - no caso pegar o Papa Léguas - e sempre fracassa? E o que dizer do nosso lado "mala" que o Pernalonga representa tão bem? A dissimulação do Piu Piu, a praticidade do Ligeirinho? Cito os antigos porque são os meus preferidos.
Na atualidade posso citar um personagem que parece ter sido criado à minha imagem e semelhança: A Dori - peixinha desmemoriada de Procurando Nemo.
Tenho muitas deficiências, mas uma das mais proeminentes é a memória ruim, seguida imediatamente pela coordenação motora sofrível. Acho admirável aquela pessoa que lembra de épocas remotas, acontecimentos, conteúdos que estudaram. Eu mal lembro o que fiz na semana passada.
Morro de agonia de ver aqueles filmes onde o policial pergunta: "Onde você estava no dia 3 de janeiro às 14h30?". Fico em pânico. Penso que confessaria qualquer coisa, porque seria incapaz de lembrar.
Sei que uma parte deste problema se deve à genética. Dizem também que a distração e a falta de memória são traços de pessoas inteligentes e criativas. Não sou tão criativa e nem inteligente assim, embora algumas pessoas acreditem que eu seja. Uma colega de um curso que fiz me disse durante um trabalho em grupo: "Faz você, Cleane, você é mais inteligente pra essas coisas". Perguntei: "Por que você acha isso?". "Porque você usa óculos e tem cara de intelectual". Gente, eu sou muito míope, meus "trocentos" graus de miopia não me tornam mais inteligente, infelizmente.
O pior de ser desmemoriada é ter sempre por perto pessoas que lembram de tudo. Do que você fez, disse, deixou de fazer ou dizer. E você não pode se defender e nem atacar porque não lembra de quase nada que você, ou ela, fez ou deixou de fazer há 30 anos atrás.
A vantagem que vejo na memória ruim (tudo há de ter um lado bom) é que posso ver o mesmo filme, ler o mesmo livro, várias vezes. Vou rir, chorar e pedir que não me contem o final pra não estragar a surpresa. Pode isso?
Talvez seja uma forma de não sobrecarregar meu HD. Guardo nele poucas e boas memórias. Assim vou tentando viver o presente, sem me apegar tanto ao passado.
Procuro exercitar a memória como posso. Mesmo sem lembrar tantas coisas a Dori me mostrou que podemos ser esquecidinhas e felizes ao mesmo tempo.
Por que resolvi mesmo escrever sobre isso?
Ih! Esqueci...

Anita Safer

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Avermelhou? Leve as finanças para a UTI

Foto: Érica

Sou do signo de Áries. Talvez por isso adore a cor vermelha. Mas fico vermelha de raiva da cor quando ela ousa se infiltrar nas finanças. Só que vira e mexe isso acontece. Então, aproveitei as férias - já que não tinha dinheiro pra viajar - e fui fazer um curso de Administração de Finanças Pessoais.
O curso é de três manhãs, o suficiente pra fazer a gente pensar: "Que diabos estou fazendo da vida?". Com o advento dos cartões bancários caímos na ilusão do crédito ilimitado. O pior é que as crianças estão crescendo com esta cultura. "Mãe, PRECISO de um celular novo, o meu parece um dinossauro...". A mãe diz: "Mas eu não tenho dinheirooooo". A réplica vem rápidamente: "Usa o cartão... dêêêê...". Aí vem a parte mais incrível, a mãe fala "É mesmo" e zip... cartão em ação. Presentinho pro fulaninho... zip... promoção de dvd pirata... zip... loja nova no shopping... zipppppppp. E de zip em zip a situação fica fora de controle. Na verdade estes exemplos não são meus, não sou muito consumista e meus filhos nunca foram de me atormentar cobrando zipagens. Mesmo assim me enrolo, muitas vezes.
No curso o professor nos ensinou a elaborar uma planilha, para termos ideia do que poderiamos cortar... uma colega respondeu de pronto... "os pulsos". Todos nós rimos muito, mas é verdade. Às vezes a situação está tão crítica que bate aquele desespero, parece não ter saída.
Estou aprendendo neste curso que a verdade liberta. Achar que estamos lascados é uma coisa, mas ter certeza é fundamental. Só tendo a real visão da situação poderemos agir como gente grande e começar a bolar estratégias para sair do buraco. Cheque especial, cartões de crédito, parcelamentos e financiamentos não são legais; devem ser recursos extremos e mantidos no controle. Eles são alimentados a juros, e juros, colegas, são os malvadinhos da história financeira.
É importante sacrificar algumas coisas para arrumar as finanças. Não estou dizendo que devemos nos render à sovinice e deixar de aproveitar a vida. Dinheiro não é tudo, mas não precisa ser tratado com desdém, afinal, a gente trabalha muitão pra ter um tiquinho. 
É preciso arregaçar as mangas e deixar de ser criança. Devemos fazer de tudo para proteger nossa mente de preocupações desnecessárias. Então, menos zip e mais juízo. Assim, organizados, poderemos realizar muitas coisas, inclusive a viagem que tive que deixar de lado este ano.
Só para arrematar... você pode pensar que eu, para aprender a economizar, estou gastando dinheiro com um curso de finanças pessoais. Que maldade a sua, este curso é gratuito. Quem quiser saber maiores detalhes é só me falar que passo os contatos , ok?

Anita Safer

Um abraço excepcional

Ela é uma senhora de idade. Estava na fila preferencial de um hospital público. Pequena, magra, com um lenço na cabeça e um chinelinho velho, costurado. Quando me aproximei recebeu-me com um olhar cansado,  meigo e um sorriso acolhedor. Seu olhar destoava dos outros, que caiam em mim com o peso da inquisição, como se quisessem saber a razão de uma mulher com menos de sessenta anos, aparentando saúde, estar naquela fila de atendimento exclusivo.
Na verdade eu não estava na fila, mas certamente estava em um perímetro pouco seguro. Aguardava minha rainha, D. Maria, que tinha entrado pra fazer um exame. Mas, tudo esclarecido, todos mudaram o olhar para o modo "suave" e pude retomar minhas atenções para a mulher de chinelo estragado e olhar transbordante.
Apesar da idade avançada a senhora guardava lugar para o filho que, a um sinal seu, aproximou-se. Rodolfo, de 25 anos, é portador da Síndrome de Down. Um rapaz lindo, com um sorriso encantador, como o de sua mãe. Ao contrário dela, estava todo arrumadinho. Ela, orgulhosa, me apresentou ao rapaz, que me abraçou com um abraço desarmado e demorado e eu, por minha vez, desarmadamente me abandonei e desfrutei daquele carinho.
Por um momento me senti inserida naquela família. Acho que existem pausas no tempo, onde tudo fica suspenso para que o amor possa se manifestar. Essas manifestações ocorrem em momentos inusitados, quando estamos distraídos. É uma forma que a vida encontra de chamar nossa atenção para nossa humanidade.
Sentí naquelas duas pessoas uma elevação de alma; onde as dificuldades vão sendo enfrentadas com amor e cumplicidade. Para isto as pessoas são empurradas umas para as outras, para que neste encontro aconteça o aprendizado. 
Se todos nós tivéssemos a capacidade de dar um abraço sincero como o de Rodolfo, sem reservas e pudéssemos ter o cuidado e o amor estampados no olhar, como o de sua mãe, o mundo seria um lugar bem confortável de se viver.

Anita Safer

domingo, 7 de abril de 2013

Um chorinho enfeitiçado

Quem me conhece há muito tempo sabe que sempre fui apaixonada por bandolins. Acho o som do instrumento diferenciado e sempre o associei a músicas lindas e de qualidade. Foi uma surpresa maravilhosa quando, no ano passado, sorteei como atividade para este ano aprender bandolim. Surpresa maior ainda foi ser sorteada na Escola de Música para um curso de um ano. De cara conheci duas pessoas que também estão começando e gostei dos dois: o Felipe e a Vilanir. Ele, como é mais sabido, foi pra uma aula mais avançada. Eu e Vilanir formamos uma dupla de iniciantes e esperançosas alunas. O curso será voltado para o chorinho. Isto me agradou demais. Talentos não faltam no Brasil e terei um material extenso para pesquisa e estudo.
Meu professor, Rafael Bandol, sugeriu que fossemos a uma roda de choro que ele participa, assim teríamos um contato maior com a música e com o instrumento. Brasília é um lugar espetacular neste sentido. Você encontra locais para todos os estilos e preferências. Aí entra o "eis o que não sabia"... e agora sei. O Feitiço Mineiro (306 Norte), onde vou muitas vezes assistir shows deliciosos e de qualidade, oferece uma roda de chorinho todas as quartas-feiras, de 19h30 às 22h30. Fui lá conferir. Estavam tocando quatro músicos:
Leo Benon (cavaquinho) e Dudu 7 cordas (violão)
Rafael Bandol (bandolim) e Gabriel Pardal (pandeiro)

o Rafael Bandol (bandolim), Dudu 7 cordas (violão), Gabriel Pardal (pandeiro) e Leo Benon (Cavaquinho). Excelentes, por sinal. Eles ficam na parte externa do restaurante, o que deixa o ambiente mais descontraído e gostoso. Música de qualidade num excelente ambiente. Uma combinação perfeita. É maravilhoso ver músicos jovens preservando e aprimorando o que temos de melhor em produção musical. A casa oferece este projeto desde 2010. Lá vocês terão a oportunidade de ouvir estes e outros músicos que aparecem de vez em quando para dar uma canja. Para quem curte chorinho e um papo gostoso sugiro uma ida a esta roda de choro.
No momento eu ainda estou tentando acertar os dedos nas cordas do bandolim. Mas no futuro, quem sabe, serei uma grande "chorona" e "bandoleira" e também tocarei naquele canto mineiro e enfeitiçado.

Anita Safer

quinta-feira, 28 de março de 2013

Os sabores do afeto

                                                                                    Foto: Clélia Ferreira Parreira
Hoje em dia fala-se muito a respeito da alimentação. Assunto importante, uma vez que cresce o número de obesos no planeta. Eu mesma engrosso o caldo, pois estou muito acima do peso. Aí começa aquela neurose desenfreada sobre os alimentos. Isso pode... isso não pode. Hoje algo é indicado, amanhã é condenado. E a gente fica naquele efeito sanfona, num verdadeiro forrobodó de engorda e emagrece.
Todo mundo sabe o que é bom e o que é nocivo em termos de alimentação, mas na hora das escolhas nem todos são capazes de utilizar a sabedoria. Minha irmã Cristina é um exemplo de correção alimentar. Come de tudo um pouco, com muita disciplina. Isso a torna uma agradável exceção em nossa família formada por irmãos fofinhos. Faz cair por terra minha desculpa preferida para o sobrepeso: a genética.
Li uma vez, em algum lugar, que para se alimentar de forma correta deve-se comer apenas o que constar nos livros de biologia. Isso não funciona pra mim, pois o livro de biologia que utilizava no Ensino Médio tinha uma imagem de uma lagartixa comendo uma barata. E garanto, não pareciam apetitosas. Nem uma, nem outra.
Talvez o que nos engorde seja a ausência do afeto na preparação dos alimentos que consumimos. Antigamente, antes da era fast food, predominava a comida caseira. Lidávamos com mais sabedoria em relação ao dinheiro, logo não enchíamos os armários e a geladeira com biscoitos recheados, sorvetes, lasanhas congeladas. O que enchia nossos olhos eram aquelas comidas cheias de afeto. Aposto que cada um de nós é capaz de lembrar algo gostoso e especial feito por nossa mãe, tia, avó. Não me lembro do sanduíche da lanchonete "tal" com carinho, lembro com gula, mas com carinho, jamais. Mas quando me deparo com a rosca de polvilho
feita pela minha tia Ociene (foto) meus sentidos ficam todos apurados. O cheiro me traz lembranças da casa da minha mãe; meus olhos me remetem ao meu estado de origem: Piauí; com meus ouvidos escuto as conversas gostosas em torno da mesa e ao sentir o sabor daquilo que me é tão familiar só me resta abraçar minha tia sentindo, de coração, toda a importância daquele afeto sem fim que todos nós sentimos por ela, e por todas aquelas que vieram com ou antes dela. É uma herança gastronômica que precisa ser preservada. Introjetar este sentido da alimentação pode nos fazer voltar ao que deve ser natural pra nós - o velho arroz com feijão, as frutas, os pães mais caseiros. Tentando evitar aquilo que nos afasta de nosso equilíbrio, como excesso de sal, de açúcar. 
Que prevaleça o afeto, este nunca se excede e é o melhor tempero, sempre.

Rodopios




Apresentação de forró


Houve um tempo na minha vida em que os hormônios estavam me enlouquecendo. Sentia que precisava fazer alguma coisa pra distrair a mente. Foi quando vi um anúncio de dança de salão no jornal.Oba! Isso parece legal, pensei. O primeiro dia de aula foi aquela dificuldade. Sentia inveja das árvores que balançavam suas copas do lado de fora da sala. Como elas conseguiam aquilo? Eu mal conseguia os dois passinhos pra lá e os dois passinhos pra cá. Mas a paixão pela dança nasceu naquele dia, de maneira instantânea, definitiva e avassaladora.
Os dias foram passando, meus hormônios foram se reorganizando e eu percebi que havia descoberto uma espécie de tesouro. Fiz aulas de dança em vários lugares, mas, sem desmerecê-los, em nenhum senti a magia das aulas do Paulo Pivetta. Sabe aqueles ambientes de filmes de dança de salão? Pois é, só faltava o Richard Gere.
Lá conheci pessoas incríveis, encantadoras, que nunca imaginei conhecer. Desta convivência nasceram laços de amizade saudáveis e verdadeiros que permanecem até hoje.
Para aquelas pessoas que acreditam que nunca serão capazes de aprender a dançar este é o local ideal pra começar. Na Dança de Salão Paulo Pivetta (Escola Parque 303/304 Norte) serão muito bem recebidos pelo Paulinho e pela Cintia e aprenderão um pouco de tudo: forró, samba de gafieira, bolero, soltinho, salsa, tango, etc. Depois disso é só sair por aí, entre passos e rodopios por esse mundão de meu Deus.

Anita Safer

terça-feira, 19 de março de 2013

A medicina aos pedaços

                                                              Foto: Érica


Um dia desses precisei marcar uma consulta com um ortopedista. Liguei para um consultório e a atendente perguntou qual era o problema. Expliquei que era um problema na mão. Ela disse:
- Mas o doutor Fulano não trata de mão, a senhora tem que procurar um especialista em mão.
Como assim? Não é tudo osso? Agora, além das especialidades temos diversas especialidades dentro da especialidade? Por fim achei o tal do especialista e já estou tratando da mão. Rezando para que não tenha problema no pé e nas costelas, senão minha agenda vai lotar de ortopedistas.
Não estou aqui criticando a medicina nem as especializações. Se há pessoas que admiro demais são os médicos. É porque me senti meio vítima do Jack, o Estripador. É estranho me lembrar que também sou feita de partes, como um quebra-cabeça humano. Talvez pela minha idade, que já começa a dar profundos sinais de saudosismo, gosto demais dos médicos que me fazem sentir como uma pessoa e não como um dedão do pé.
Exemplos de médicos que admiro por esta visão global do paciente não me faltam. O pediatra que cuidou dos meus filhos quando pequenos, doutor Adanir Martins Mesquita, por exemplo, será canonizado se depender das minhas orações. O carinho real com que ele atende às crianças e seus pais aflitos, aliado à sua competência e comprometimento fazem dele um profissional ímpar.
Outra médica que anda na contramão desta tendência de ver as pessoas de forma compartimentada é a doutora Isabel Romeu. Atendendo como Clínica Médica e Homeopata, ela não vê seus pacientes como um saco de sintomas; vê um ser humano que está sofrendo naquele momento por não estar totalmente em equilíbrio. Para ela, algo está em desarmonia, por isso o corpo reclama. Encontrar a origem da manifestação da doença e tão importante quanto o uso da medicação para promover a cura.
Sei que a medicina também está doente, os médicos são absurdamente mal remunerados e sobrecarregados com escalas, muitas vezes, desumanas. Sem falar na falta de condições de trabalho, que dispensa comentários. Ainda levam a fama por uma minoria de maus profissionais que desfilam nos noticiários diariamente.
Claro que quanto mais especializado o médico, mais poderá entender do problema. Afinal, a medicina está cada vez mais avançada, graças a Deus. Se estiver alinhada ao sentimento de humanidade, melhor ainda.
Só desejo que este excesso de especialização não vire moda e parta para outros setores como relacionamentos amorosos, por exemplo. Senão chegará o dia em que você falará pro seu(ua) parceiro(a) que gostaria de mais atenção às preliminares e escutará a seguinte resposta:
- Puxa, amor, preliminar não é minha especialidade, mas conheço uma pessoa ótima pra te indicar.
Ai ai... Haja saúde!

Anita Safer