Foto de Arthur Sousa Parreira

Neste
encontro da mulherada vamos ao cinema, ou a um café, ou ao boliche, ao parque,
qualquer lugar. O importante é que estamos juntas, as irmãs, nossas filhas, às
vezes algumas sobrinhas e cunhadas. Muitos desses encontros nosso sobrinho
Apoena também foi, infringindo a regra do “clube da Luluzinha” – quem é mais
velho vai lembrar o que isso significa – e era uma presença muito festejada, não
só por ser querido demais pra nós, mas por representar nossa mana Cleo, que
também faleceu.
Minha mãe
tinha um lindo nome: Alice. Ela não vivia no País das Maravilhas e sua vida não
era um conto de fadas. Ainda bem, porque ela não tinha nenhuma paciência para o
excesso de fantasias. Sem apego ao passado ela tinha os pés fincados no chão e
um sonho atrás do outro pra realizar. E cada vitória era comemorada com uma
cheirada de rapé. Um filho casava... rapé. Alguém passava no vestibular... rapé.
Um neto nascia... Mais cafungada no rapé. Nos momentos tensos o rapé também
tinha sua função. E todos os filhos e netos achavam aquilo incrível e
acreditavam – coitados - que podiam cheirar escondidos pra ver como era. A espirradeira
denunciava o ilícito e todos viam que aquilo só tinha graça mesmo pra ela.
Era linda a
maneira como ela tratava toda e qualquer pessoa como um velho amigo. Todos os
nossos amigos a amavam. Acho até que não saiam de nossa casa só pra ficar perto
dela. Foram muitas as pessoas que ela acolheu e se amontoavam com os oito
filhos num apartamento de dois quartos. Ela reinava absoluta, ao som dos violões
dos meus irmãos, que compunham uma música atrás da outra PARA NOSSA
ALEGRIAAAA...
Uma vez ela
hospedou em nossa casa uma pessoa que havia feito uma cirurgia de mudança de
sexo. Isso foi nos anos setenta, era uma coisa totalmente desconhecida na época
e a única dúvida que ela tinha era se colocava a pessoa para dormir no quarto
dos homens ou das mulheres. Para ela não havia preconceito. Para que julgar se
você podia apenas amar? E ela cuidava de todos com a combinação perfeita de
amor, comida e Vicky (que para ela curava até câncer).
Por isso é
importante esse contato constante com o feminino/materno que há em mim. Tenho muito
orgulho e carinho por todas as mulheres da minha família. Também admiro muito o
lado feminino que habita cada homem com quem convivo. E, se sou assim, a culpa
realmente é da mãe.
Obs: Este
ano, excepcionalmente, teremos que adiar o encontro, que acontecerá em breve.
Anita Safer
Anita Safer
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