domingo, 3 de fevereiro de 2013

Feminino/Materno

Foto de Arthur Sousa Parreira
Hoje é o dia três de fevereiro. Dia do Encontro da Mulherada. Pelo menos para mim e para minhas irmãs. Instituímos este dia para estarmos juntas e reforçarmos o que há de feminino e materno em nós. É como se fosse um ritual. O dia de hoje é o dia do aniversário de nossa mãe, que faleceu há uns anos atrás... Faleceu, mas não morreu. Não morreu porque dona Ala nunca teve cheiro de morte, ela cheirava a rapé.
Neste encontro da mulherada vamos ao cinema, ou a um café, ou ao boliche, ao parque, qualquer lugar. O importante é que estamos juntas, as irmãs, nossas filhas, às vezes algumas sobrinhas e cunhadas. Muitos desses encontros nosso sobrinho Apoena também foi, infringindo a regra do “clube da Luluzinha” – quem é mais velho vai lembrar o que isso significa – e era uma presença muito festejada, não só por ser querido demais pra nós, mas por representar nossa mana Cleo, que também faleceu.
Minha mãe tinha um lindo nome: Alice. Ela não vivia no País das Maravilhas e sua vida não era um conto de fadas. Ainda bem, porque ela não tinha nenhuma paciência para o excesso de fantasias. Sem apego ao passado ela tinha os pés fincados no chão e um sonho atrás do outro pra realizar. E cada vitória era comemorada com uma cheirada de rapé. Um filho casava... rapé. Alguém passava no vestibular... rapé. Um neto nascia... Mais cafungada no rapé. Nos momentos tensos o rapé também tinha sua função. E todos os filhos e netos achavam aquilo incrível e acreditavam – coitados - que podiam cheirar escondidos pra ver como era. A espirradeira denunciava o ilícito e todos viam que aquilo só tinha graça mesmo pra ela.   
Era linda a maneira como ela tratava toda e qualquer pessoa como um velho amigo. Todos os nossos amigos a amavam. Acho até que não saiam de nossa casa só pra ficar perto dela. Foram muitas as pessoas que ela acolheu e se amontoavam com os oito filhos num apartamento de dois quartos. Ela reinava absoluta, ao som dos violões dos meus irmãos, que compunham uma música atrás da outra PARA NOSSA ALEGRIAAAA...
Uma vez ela hospedou em nossa casa uma pessoa que havia feito uma cirurgia de mudança de sexo. Isso foi nos anos setenta, era uma coisa totalmente desconhecida na época e a única dúvida que ela tinha era se colocava a pessoa para dormir no quarto dos homens ou das mulheres. Para ela não havia preconceito. Para que julgar se você podia apenas amar? E ela cuidava de todos com a combinação perfeita de amor, comida e Vicky (que para ela curava até câncer).
Por isso é importante esse contato constante com o feminino/materno que há em mim. Tenho muito orgulho e carinho por todas as mulheres da minha família. Também admiro muito o lado feminino que habita cada homem com quem convivo. E, se sou assim, a culpa realmente é da mãe.
Obs: Este ano, excepcionalmente, teremos que adiar o encontro, que acontecerá em breve.

Anita Safer

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