terça-feira, 7 de maio de 2019

De repente o tempo muda

Foto: Érica P.
Vou contar uma coisa que aconteceu no ano em que nasci - não, não foi em 2000 como minha jovem aparência indica...hehehe - mas prefiro não citar o ano. Sem comentários sobre isso. Abafa o caso. Mas, para os curiosos de plantão vou dar uma dica, aí é só pesquisar.
No ano em que nasci, um meteorologista americano chamado Edward Lorenz estava lá - sendo meteorologista - e viu que uma tempestade tropical estava prevista para cair em Louisiana. Mas ele notou - sem querer, querendo - que estava acontecendo uma mudança climática no Alaska. O que eu pensaria? Você talvez, também. "Hã? O que uma coisa tem a ver com a outra?". Mas Edward era "o cara" e refez lá seus cálculos e viu que a tempestade não ia rolar como o previsto, nem no local previsto; em compensação, um mega ciclone atingiria outra região americana. Tudo por causa da mudança de clima lá do Alaska. E não é que aconteceu? Danadinho, esse Ed. Daí surgiu a teoria do Efeito Borboleta. Na cultura popular dizem que o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e, quiçá (sempre quis usar essa palavra...rs) provocar um tufão do outro lado do mundo.
Tudo bem que essa frase é meio dramática, mas sabe o que a descoberta quer dizer? Com certeza não é que meu nascimento mudou o curso da humanidade e nem que eu saí por aí batendo minhas asinhas e causando os maiores estragos. Significa que um pequeno detalhe pode mudar o todo ou, ao menos, uma parte do todo. 
Quando eu era "xóven" ficava indignada quando errava toda uma equação matemática só por causa de um maldito sinalzinho. E eu errava muitooooo. Hoje eu entendo o porquê de meu professor de Matemática ser doido pra me reprovar. Ele estava certo. Ora, ora, quem diria. Um erro de cálculo pode derrubar um avião, fazer um prédio desabar, um foguete sair da órbita ou, até mesmo, fazer um comerciante levar um tiro de algum doido por um troco errado.
O Universo é sensível, gente. Nada é totalmente previsível. O máximo que podemos fazer para redução de danos é o que Lorenz fez, prestar atenção nos detalhes. Se (teoricamente) uma borboleta faz um estrago danado, imagina o que fazemos com nossas decisões. Uma pequena atitude de um pode afetar a vida de muitos, para o bem ou para o mal.
Agora me deu pena da dupla Victor e Léo. Eles acreditam que as borboletas sempre voltam... Às vezes elas estão por aí, distraídas, batendo asas e mudando o curso das coisas.

Anita Safer

sábado, 23 de março de 2019

O sonho não acabou

Ilustração: "Escapismo" de Isadora Duarte
Algumas pessoas andam me perguntando sobre meus textos no blog. Por incrível que pareça tenho alguns leitores...rsrs. Para eles, meu amor eterno (veja dedinhos indicadores e polegares se juntando em forma de coração). O fato, queridos, é que amo falar de coisas corriqueiras, leves, engraçadas. Curto apreciar as coisas bonitas da vida, pensar e escrever para tentar entender sobre aquilo que não sei - daí o título do blog.
Eis o dilema: Como escrever sobre coisas simples e leves em meio a tanto sofrimento como temos visto? Como falar de amor e delicadezas num ambiente contaminado pelo ódio e intolerância? Seria como se eu fosse uma alienada, uma Alice no País das Maravilhas. 
Talvez em função dessas inquietações tive um sonho lindo um dia desses. Sonhei que me encontrava com John Lennon e tínhamos uma linda, longa e inspiradora conversa. No sonho ele desnudava minha alma e dizia saber da minha tristeza em relação ao que estava acontecendo com o mundo e com as pessoas. Mas ele dizia que muitas outras pessoas também se sentiam como eu e estavam acuadas. O fato de estarem acuadas não estava permitindo os encontros. 
Ele sugeria que eu buscasse a alma leve em meio ao caos, o amor em meio ao ódio, o sorriso sincero no meio da dor. Para que cada um que se sentisse desalentado ao meu redor soubesse que não está só.
Esse é um breve resumo do sonho, tipo um trailer...hehe. Mas acordei muito emocionada, chorando. Com o sentimento de que é preciso, sim, resistir. Aceitar as diferenças. Acreditar nas pessoas, verdadeiramente do bem, que não destilam ódio. Seguir a intuição e o coração. Acreditar em sonhos. Na música Dream do meu amigo íntimo e querido John Lennon (olha os indicadores e polegares se juntando de novo, minha gente), ele diz:

"Sonhe, sonhe sempre.
Magia no ar, tinha magia no ar?
Eu acredito, sim, eu acredito"

Anita Safer

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Pré-Natal

Foto: Thiago Lopes
Vou eu dirigindo "rumo ao meu rumo". Precisava muito entrar à direita na rua principal. Apesar do meu carro piscar insistentemente sua seta sedutora, demonstrando a intenção de mudar de faixa, os carros ao lado ignoravam. Seus condutores deveriam estar com as mentes ocupadas por providências a tomar, não tinham tempo para seduções e gentilezas. Opa! Uma possibilidade agora, depois daquele carro branco. Agora dá. É agora ou nunca. It's now or never. Virei, não antes de levar uma buzinada da moça do carro cinza. Ela estava no tal do ponto cego. Que dizem que existe e existe mesmo. A gente não vê o ponto, então não entendo como um ponto que ninguém vê ao certo pode-se afirmar que seja cego, mas as coisas desaparecem mesmo misteriosamente naquele lugarzinho do retrovisor. São abduzidas e reaparecem depois, quase sempre acompanhadas de freadas bruscas ou buzinadas. Nesse caso foi só a buzinada mesmo. Mas foi uma buzinada leve, até mesmo aveludada. Apenas uma pequena advertência, gentil, um simples bibip, como quem diz: "Cuidado, você tá ameaçando invadir meu espaço, posso até bater em você se eu quiser, mas não o farei porque sou gentil e tenho uma buzina educada". Ainda bem! Poderia ser outra buzina qualquer, como aquela que ouvi em outro momento; mas não pra mim, no caso. Era uma buzina irritada e irritante, que berrava de forma estridente na traseira de um carro indeciso que vacilava em entrar, ou não, no estacionamento pago.
Quis gritar para o homem... Homem, não entre neste estacionamento pago! Jamais! Eu já cometi esse grave erro. Só de entrar você fica falido. Quando o Natal está chegando você precisa priorizar; ou paga o estacionamento ou faz a ceia, os dois não dá. Se pagar o estacionamento, comprar presentes fica inviável. Exagero meu pensar assim. Aliás, ser exagerada nos meus pensamentos é uma especialidade que desenvolvi. Pensei então na roupa que deveria usar numa confraternização à noite, nesta meia estação - meio calor extremo, meio extremo calor. 
Peço desculpas a quem achou que vou dar à luz por causa do título do texto. Não estou grávida, nem fazendo este tipo de pré-natal. É que esse período do ano é quase um parto. Mas é só uma preparação para o Ano Novo, onde a gente renasce com nossas promessas e planos que, quase sempre, serão esquecidos. Mas desta vez não (é o que sempre digo, tenhamos fé). 

Anita Safer

sábado, 1 de dezembro de 2018

Mudança de hábito

Foto: Liana Rocha (com Isabela)
Muita gente aqui deve ter assistido ao filme Mudança de Hábito. É com a maravilhosa e incrível Whoopi Goldberg. Eu lembrei dele porque, gente, é muito difícil mudar um hábito. Sei do que estou falando. Eu tento, tento, e quando vejo tô eu lá de novo, nos velhos, ultrapassados e conhecidos hábitos. E olha que a minha lista de hábitos pra mudar é extensa. Vou citar só alguns, pra não cansar vocês...hehe.
Hábitos alimentares... afff... por que chocolate tem que ser escandalosamente mais gostoso que um brócolis? Por que há seis mil anos os egípcios misturaram farinha com água e inventaram a pizza? E os portugueses, danadinhos, ainda trouxeram as empadinhas pra cá. Galera, o mundo inteiro se une pra dificultar a sua vida, desde que o mundo é mundo. Como se não bastasse, aqui mesmo no Brasil, em 1940, em uma campanha com o intuito de promover a eleição do brigadeiro Eduardo Gomes à presidência da república os moradores de Pacaembu criaram um doce pra vender e arrecadar fundos e esse doce passou a ser chamado como? de brigadeiro. Fala sério! E eu aqui... na luta. 
Mas não é só esse hábito que tenho pra mudar, quem dera fosse. Tenho outros, tipo, me preocupar demais com tudo o tempo todo. Meu filho viaja pro exterior e manda uma foto todo feliz em um bar estiloso. O que eu vejo? Que ele está de camiseta enquanto o cara na mesa de trás está todo empacotado, de gorro, casaco e sabe lá mais o que. Aí eu jogo aquela indireta: "Humm, parece que o frio resolveu dar uma trégua...". Então eu lembro a tempo que estou sendo um pouco ridícula e foco no sorriso lindo dele (isso já é fruto de um trabalho incansável que tenho feito pra brecar as preocupações...rs). 
Voltando um pouco ao filme, a personagem da Whoopi precisa se esconder em um convento. Ela é chave de cadeia, aquela pessoa que vive se metendo em enrascadas e, pra sua proteção, é escondida lá pela polícia. Então ela vai reger o coral e blá blá blá, vocês já devem saber. Mas olha que interessante. Pra sair da vida que ela tinha foi preciso que ela fosse exposta a um outro estilo de vida. Acho que ela adotou um "novo hábito" (aqui cabe mais de um sentido). Dizem que o segredo é esse mesmo. Para mudar um hábito não adianta entrar no fight com ele, ele pode ser mais forte que você; é preciso aderir a um novo hábito, mais saudável do que aquele que te aprisiona e prejudica. 
Não que eu precise comer brócolis nas festinhas infantis no lugar do brigadeiro, mas posso priorizar os alimentos saudáveis. Quanto aos pensamentos eu posso substituí-los por outros mais agradáveis no momento em que eles surgirem. E fazer assim com cada hábito a ser mudado, aos poucos, mesmo escorregando, às vezes. A própria atriz falou sobre dificuldades quando entrevistada: "Tomar uma atitude é difícil, mas sabe o quê? Aguentar uma situação ruim pode ser um inferno".

Anita Safer

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

"Spairecendo"

Escrevo de uma pousada em Pirenópolis/GO. Minha vó Chiquinha tinha uma frase engraçada, mas sábia, que dizia:  "Besta aqui, besta em qualquer lugar ". Uma forma simples de dizer que não adianta mudar o cenário, pra onde você vai você leva quem você é. Mas às vezes é muito bom  (e necessário) ser besta em outro lugar...rs. Foi assim que vim pousar aqui por uns dias . Depois de um tempo sem sair, bateu a vontade. 
Me sinto como se estivesse num spa ..."sparramada" na cama, sem compromissos, sem hora pra nada. O café da manhã se materializa sem que eu mexa um dedo, parece um sonho.  Leio com calma um livro, ouvindo apenas os pássaros escandalosos da região. A cidade está linda e calma. 
Pra manter minha tradição pessoal em viagens, fiz duas coisas que sempre procuro fazer. Fui à missa e ao cinema. Engraçado porque não costumo ir à missas, mas não resisto às igrejas de outras cidades. E lá estava eu, rezando ao som da Sandy. Sério, a moça que cantava tinha a voz igualzinha à da Sandy. Fiquei naquela expectativa de fazer coro em "...se a lenda dessa paixão...". Mas o repertório era outro, bonito também, com aleluias e hosanas. 
No cinema uma apresentação gratuita do filme O Palhaço. Adorei. Não tinha assistido ainda. 
E tudo tem sido tão bom. Tão em paz e revigorante, que estou feliz em ter vindo ser besta em Pirenópolis. A mente precisa de uma pausa das mesmas paisagens, assuntos e preocupações. 
Até animei. Já quero pensar em outros lugares pra "bestar".

Anita Safer

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Nossos sentidos

O rádio do carro tagarela sem parar. Diz que parece que não vai chover tão cedo. E tome notícias de política, promoções e brindes. A mente se desdobra entre o trânsito, os assuntos que a emissora despeja e os pensamentos que pulam de lá pra cá e de cá pra lá. Então toca uma música e aquela música te desperta um sentimento. "Acho que estou apaixonada. Ops... nem tô!" Mas a música faz com que me sinta assim; então, deixa rolar. As cigarras cantam desesperadas, quase estourando, tentando anunciar a chuva que a emissora de rádio acredita não estar próxima de chegar. Na rede social uma música do Beto Guedes me faz lembrar de quem ainda sou. Muito em mim mudou, mas o Beto permaneceu (danadinho!).
Em momentos de ansiedade apertar as bolinhas de um plástico bolha
trazem uma sensação incrível.
Não adianta mentir, sei que muita gente não pode ver um plástico desses. Pode até rolar um fight pelo seu domínio...hehe. São as sensações que o tato trazem. Uma toalha macia, o pelo de um animal (desaconselho leões e afins...rs)...
Os olhos são as janelas da alma, dizem. É bom quando nossas janelas estão abertas para as coisinhas lindas da vida. A visão de uma criança feliz, uma paisagem bonita, as pessoas que amamos.
No meio da estrada havia uma fábrica de café e aquele cheiro incrível nos remete ao aconchego de um lar, que pode ser o nosso, algum lar cristalizado nas lembranças de infância, uma cafeteria. Algum momento em que nos sentimos alimentados com aquele aroma como pano de fundo. E olha que nem sou muito de tomar café, mas vamos combinar, aquele cheiro vale, por si só.
E os sabores? Aquela sopa de ervilha num dia de chuva. O sorvete devorado do pote, naquele momento de fúria e desencanto. O bolo da Maria (quem conhece sabe), que se faz presente em momentos de alegria, especialmente pela sua doce presença.
Os sentidos também podem trazer lembranças ou sentimentos ruins. Não há nada de legal em ver uma barata olhando pra você com aquela superioridade de quem vai te nocautear com um voo certeiro. Quando algo não cheira bem (pode ser em sentido literal ou figurado). Aquela comida que te juraram que era uma delícia... Só que não!!! E o que dizer do barulho de britadeira às oito da manhã de um sábado qualquer te tirando o sono e o humor? Passar a mão, por engano, em um tecido que te dá gastura... Arghhh!!!
Quando as coisas estão difíceis - e elas teimam em ficar - são esses sentidos associados ao bem estar que podem nos salvar. Podem transferir nossos pensamentos ruins, pelo menos por uns instantes, para breves momentos de paz e prazer. Nossos sentidos são tão importantes que quando somos privados de algum os demais tentam compensar. 
Acho que na verdade os sentidos fazem muito sentido.

Anita Safer

domingo, 16 de setembro de 2018

Um brinde às gentilezas

Foto: Clélia Parreira
Acordei. Não muito cedo; o dia de domingo traz consigo algumas concessões. Permite que você faça seus horários. Também não acordei muito tarde. Foi no momento certo. Momento exato de atender ao telefone. Do outro lado da linha a voz doce e linda da minha doce e linda irmã me convidou para um café da manhã em sua casa. Que convite gentil, pensei. Que coisa mais mimosa! Achei ainda mais mimoso e gentil quando soube que o café da manhã era pra uma sua amiga querida, que estava fazendo aniversário. Claro que fui. Dificilmente recuso um convite gentil. Também não resisto a comidas e companhias gostosas...rs
A mesa posta demonstrava todo o carinho que a ocasião sugeria. Papos fluindo. Geleia pra lá, pão de queijo pra cá. Cheiro gostoso de café. Então o interfone toca. Era o filho de uma outra amiga da minha irmã. Como ela não poderia estar presente, enviou pelo filho uma garrafa de espumante, para que fizéssemos um brinde. Fiquei encantada com a delicadeza do ato, com a atenção, com a... GENTILEZA.
Pessoas gentis prestam atenção nas outras. Buscam estar sempre presentes na vida das pessoas que lhe são queridas. Não falo da gentileza polida, das pessoas formalmente educadas. Falo das pessoas sinceramente gentis. Elas encantam sem alarde. Afagam a alma do outro com delicadeza. Transformam momentos simples em um verdadeiro brinde à vida, à felicidade, à amizade. Soube que ela é uma pessoa atenta e que traz consigo essa qualidade rara de valorizar o outro. 
Faço então um brinde: Que as pessoas gentis se multipliquem no mundo. Que a gentileza se espalhe como um vírus do bem, contaminando, se multiplicando. Que a gente receba e ofereça cafés maravilhosos. Que brindemos com as taças valorosas dos bons sentimentos, que nossa presença seja sempre sentida na vida de quem amamos. Assim tudo fica melhor. TIM TIM!
Foto: Arthur Sousa



Anita Safer

sábado, 18 de agosto de 2018

Vai que é tua...

Foto: Alexandre Romero
Quando eu ainda era uma "xóvenzinha" jogava handebol no time da escola. Por cinco anos fui goleira titular. Goleira sim... Estou ouvindo risadinhas? Ouço hahaha? Ouço kkk? Mas é sério. Não sei como isso aconteceu. Sou muito baixinha e muito míope. Tinha que jogar sem óculos, ou seja, só via a bola quando ela tava na minha cara, quando percebia um ventinho dela passando por mim e indo pro gol ou a sentia arrebentando meus peitos. Mas treinava muito as bolas altas pra não ser muito humilhada. Dava uns voos aleatórios pra tentar pegar algo na sorte. Escola é assim, insistem em te colocar em situações vexaminosas. Mas era divertido. Por que lembrei disso mesmo?...
Tá, lembrei. Estava passando por uma quadra de esportes e parei. Parei porque os ipês amarelos floresceram. Parei porque um banco me convidou, galantemente, para que eu me sentasse. Não resisti. Na quadra de esportes em frente ao banco rolava uma partida de futebol. Eram alguns homens e alguns meninos. Eles se misturavam, ora eram homens/meninos, ora meninos/homens. Mas não vi meninas, o que lamentei. Talvez fosse minha missão ser a mulher/menina que faria parte daquela cena. E no corre pra lá e pra cá do jogo algo chamou minha atenção. O goleiro. Ah, esses goleiros são mesmo umas peças raras. Ele era pequeno, devia ter uns oito ou nove anos. Ostentava uma linda e nova luva de goleiro. Ressalto que todos os demais só estavam com aquele uniforme tradicional de peladas informais (os com camisa e os sem camisa). Mas o pequeno goleiro estava lá, todo garboso, com suas luvas. O interessante é que ele não se conformava em ficar no gol. Ele ia da defesa pro ataque, corria junto com o contra-ataque e eu pensava... "Meu Deus, ele está atacando a si mesmo... Parece mais uma doença autoimune". Esses goleiros! Ninguém, além de mim, se preocupava com isso. O mais incrível é que estando ele no gol, ou fora dele, parava tudo e ficava olhando pra suas luvas. Extasiado. Perdi a conta de quanto estava o jogo, quantos gols ele levou, evitou ou tentou fazer. Só via sua alegria em estar jogando com suas lindas luvas novas.
Me peguei pensando em como sou assim, às vezes. Quero estar em mil lugares ao mesmo tempo, fazer diversas coisas. Meio "sem noção" em alguns momentos, sem saber que tenho que ficar no meu lugar...rsrs. Quem nunca, não é mesmo? Mas, assim como aquele menino, às vezes paro pra ver as coisas maravilhosas que tenho em minhas mãos. Meus bens mais preciosos estão juntinhos a mim. Todos e tudo que amo. Aí eu vejo que a vida é mesmo um jogo. Ouço até Elis Regina cantando - com aquela voz de diva - em minha cabeça "Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar..."

Anita Safer


quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Clicando e aprendendo

Já comentei algumas vezes aqui que costumo sortear alguma atividade nova pra fazer a cada ano. Este ano sorteei aprender coisas pela internet. Dizem que a rede tem um "mondicoisa" que não presta. E é verdade, tem mesmo, quem vai negar? Mas tem muita coisa legal. Tantas que não consegui me fixar  em uma só. 
Um dia comecei a fazer Tai Chi Chuan com o mestre "X". Mas também achei legal fazer ginástica com a mocinha jovem e sorridente. Ela sorria de lá e eu me esbaforindo do lado de cá (mas tentando sorrir pra ficar simpática que nem ela, já que não conseguia reproduzir a silhueta sarada). O crochê eu já tinha me aventurado um tempo atrás. O primeiro sapatinho de crochê que fiz foi puramente emocional, quis fazê-lo pra presentear um amigo querido, que ia ser pai. Desculpa, Lêu! Ficou horrível, mas foi de coração. Eu sempre acho muito legal quando recebo presentes feitos pela pessoa. Acho fofo. Carinhoso. Então, de vez em quando, tento presentear alguém com algo que fiz. Lembro que a minha primeira investida neste campo foi quando eu era criança e tínhamos que fazer um presente de argila pro dia das mães. Enquanto as coleguinhas confeccionavam lindas pulseiras e cinzeiros eu mandei ver numa escultura. Era pra ser um lindo rosto, mas virou uma espécie de carranca, que afastava todo o mau olhado (e os bons também...haha). Mas quanto ao crochê eu até que aperfeiçoei um pouquinho. Fiz uma roupinha pra minha neta Isabela, que tem o dom de deixar qualquer roupa linda de morrer. Modelo profissional é outra coisa...rs
Então resolvi aprender sobre Einstein e a Teoria da Relatividade. Descobri que tudo é relativo. Existem duas pessoas, um saca de exatas e tem um raciocínio lógico e a outra sou eu; logo, aprender sobre física é uma coisa relativa - ou seja,  não entendi absolutamente nada, ou "relativamente" coisa alguma. Fui fazer um curso de empreendedorismo, mas ele exigia uma certa disciplina que minha mente se recusa a seguir. 
E o ano continua. E tome sites de receitas, como tirar a sujeira do microondas. Tutoriais de maquiagem, de costura, artesanato, jardinagem, marcenaria... Aff... Fico louca!
Seguirei até o final do ano tentando aprender uma coisinha aqui, outra ali. E ano que vem os papeizinhos do sorteio dirão qual será a minha nova aventura.

Anita Safer

Era pra ser um bom dia

A senhora caminhava a passos rápidos. Era sua caminhada matinal. As bochechas estavam rosadas pelo visível esforço. Assim como era visível o esforço da calça legging em conter os quilos a mais que ela buscava eliminar. Distribuía bons dias a todos. Recebia de volta variados tons de bom dia. Uns sorridentes, outros reticentes... Alguns não combinavam com o rosto - enquanto a voz dizia bom dia os olhos não ocultavam o dissabor - mas respondiam, afinal, era isso o que se esperava.
Ao passar pelo rapaz, jovem ainda, ela escolheu o melhor sorriso e despejou um sonoro... BOM DIA!
Ele seguiu seu caminho. Nem um bom dia, nem um olhar, nem um sorriso. Ignorou seu sorriso, suas palavras, sua legging contida... Ignorou.
No mesmo instante a decepção tomou conta do sorriso da mulher. Dos lábios onde habitavam os bons dias saíram palavras ditas como que para si mesma:
- Juventude mal educada!!!
Ela não percebeu que ele havia respondido sem palavras. Não percebeu a mochila, aparentemente, pesada que ele carregava nas costas. Sabe-se lá quanto peso ele carregava nas costas! O olhar dele fixo no chão. A silhueta curvada,  quase dando um nó, como se buscasse a posição fetal. Não pode ver os pensamentos flutuando em volta daquela cabeça jovem. Ele não usava legging. Não era a calça que o continha, mas todo ele estava contido. Absorto em seus pensamentos. Talvez pensando em muitas coisas, talvez não pensando em nada. Ele era jovem, sim. Talvez não fosse mal educado, ou talvez fosse... Vai saber.  A mochila podia estar pesada ou vazia. Ele pode nem ter escutado o bom dia, ou ter mesmo ignorado. Mas ele não precisava ser o motivo de fazer com que ela descesse do céu ao chão. Aquele julgamento meteórico que condenou toda uma juventude ao rótulo de mal educados foi um indício de que, além de estar usando uma  legging, talvez ela carregasse nas costas também uma mochila invisível, pesada, buscando sentido e alegria em uma caminhada e em uma boa dose de bons dias. Nem todos os dias são bons, nem para a moça da legging, nem para os que andam reticentes, menos ainda para os que ocultam o dissabor, nem para o jovem da mochila. Eu e você também não temos todos um bom dia, mas temos aqueles momentos em que despimos as leggings e nos livramos do peso nas costas. Aí sim, podemos dizer com sinceridade... Bom dia!

Anita Safer