domingo, 13 de novembro de 2016

Por trás de uma data perfeita, há sempre um duende à espreita

Fotos: Márcia Alves
Vou ser madrinha de um casamento. To super honrada e feliz, porque meus afilhados, Daniel e Lidiane, são uns queridos. Jovens, companheiros e apaixonados. É uma alegria fazer parte desse momento. Antes do casamento existem várias etapas e esses dias teve o Chá de Casa. Foi maravilhoso! Tudo lindo, gostoso e divertido. Mas antes de começar encontrei a noiva confinada no quarto. Ela estava agoniada porque, depois de correr o dia todo, tinha esquecido de levar o vestido que usaria na festa. Eu disse a ela que isso fazia parte do pacote. Esses imprevistos amam aparecer em momentos importantes, mas que ia dar tudo certo e seria um sucesso. E foi. Fico pensando, por que cargas d`água acontecem coisas pra deixar tenso aquele momento em que deveria ser tudo perfeito? Por que o computador deixa a pessoa na mão na hora da conclusão de uma monografia? Por que o DJ esquece de tocar as músicas que você pediu na hora da festa? Por que a maquiagem que devia te deixar parecida com a Grace Kelly no dia do seu casamento, te deixa parecendo o Curinga? Eis o que não sei. Meu amigo dizia que eram obras de duendes, que se divertiam em nos ver no sufoco. Que pra distraí-los tínhamos que sair correndo e jogando balinhas no caminho. Assim eles iriam pra longe e não atrapalhariam o evento. Mas nunca quis arriscar, vai que meu amigo é um deles e quer apenas se divertir às minhas custas. Mas uma coisa é certa, tudo vira lembrança e assunto. Um dia, numa roda de conversa, as pessoas compartilham as histórias. "Meu casamento foi lindo, mas...", "minha conclusão de curso foi uma loucura porque...", " não imagina o que aconteceu no meu parto...". A vida faz dessas coisas, como diz minha filha "é a vida sendo vida". E que venham casamentos, formaturas, filhos, viagens, porque nada supera a alegria das doces conquistas que realizamos pelo caminho; nem mesmo duendes zombeteiros".

Anita Safer

sábado, 5 de novembro de 2016

Na poeira da estrada

Foto: Evandro Dâmaso
Amo viajar. Pra longe, pra perto. De avião, de trem. Gosto até de "viajar na maionese". Só não curto navio e afins, o mar me dá aflição. Pra mim, qualquer embarcação tem o nome de Titanic. A maneira que mais gosto de viajar é de ônibus. Agora é a hora em que ouço a Nema dizer: "Mas é pobre mesmo!". Nema é minha prima-irmã que vive se escandalizando com minha falta de ambição. Fazer o que se eu sou desse modelo de pessoa? Pra ser coerente, quase sempre viajo de ônibus. Gosto de ver a mudança da paisagem.
A primeira viagem que fiz sozinha foi pra Maceió. No ônibus estavam vários homens que estavam voltando pra casa, vindos de uma frente de trabalho. O que sentou ao meu lado fez o resumo de sua vida enquanto apontava, de instante em instante... "Aquela é uma plantação de soja... de milho... de trigo... de arroz...". A viagem seguia e a poeira ia engolindo o medo e ficando pra trás. Ia surgindo, aos poucos, uma nova parte de mim, que conseguia se sentir confortável em territórios e companhias desconhecidos.
Num livro de Mia Couto tem a seguinte frase: "O avião tem pressas que não são humanas". Dessa pressa fujo, sempre que possível. Não é por medo, nem por questões econômicas. É por gosto. Gosto dos verdes, vilas e cidades que vão se desenhando à beira da estrada, com suas claridades diversas. Me encanta o escuro da noite estampado na janela, entrecortado pelas luzes de postes monótonos e amarelados.
Coisas engraçadas acontecem, como quando numa viagem, durante a noite, um homem falava ao telefone na cadeira de trás. Certamente estava confiante de que o silêncio que havia era garantia de que todos dormiam.
- Amor - ele sussurrava com a voz melosa e rouca, como a de um cantor sertanejo - O que você está usando? Hummm... Aquela camisolinha que eu adoro! Já to chegando minha linda, cheio de saudade. Um beijo bem gostoso nessa sua... bochechinha!
A mulher da cadeira da frente disse:
- Nossa! Que susto!
Risos abafados em todo o ônibus. E a viagem segue. Percalços são possíveis, o cansaço é grande, mas é só o começo da aventura que está por vir.

Anita Safer

Filme de terror é para os fortes. Será?

Foto produzida por Arthur Sousa
Eu sou a tia do terror. Pelo menos acho que essa é a marca pessoal que deixarei de lembrança pro meu sobrinho Arthur. O que fazer se eu e ele criamos, meio que sem querer, o hábito de assistirmos juntos a quase todos os filmes assustadores que são lançados? Assustadores pra mim, pelo menos, ele é destemido. Fomos assistir Quando as Luzes se Apagam. Mal começou o filme, as letrinhas ainda estavam começando a aparecer e...TCHAN!!!... Começou! Aquela cena inesperada que me fez pular da cadeira e falar o meu tradicional "Bosta". Meus filhos riem de mim porque dizem que no meu vocabulário esta palavra é a que mais se aproxima de um palavrão. E ela vem sempre neste contexto. Depois da palavra pronunciada segue a promessa nunca cumprida: "Nunca mais vou assistir um filme desses". Conversa. Já vimos os trailers dos próximos e já tá tudo articulado.
De onde virá esta disposição pra assistir filmes de terror? Eis o que não sei. Uma vez li um artigo onde um psicólogo dizia que algumas pessoas gostam de ver filmes deste gênero porque, de alguma forma, veem na tela a representação de seus medos. Desta forma podem vivenciá-los de maneira segura. Isso explicaria meu caso. Muitos medos, muitos filmes. Não gosto dos violentos, tipo Jogos Mortais. Prefiro os que tem sustos, que fazem a gente pular e a palavra, aquela que começa com a letra B - mas que não vou repetir porque não é hora, nem lugar - escapa dos lábios. Aí é só sair do cinema na maior adrenalina, comentar com o Arthur sobre as cenas horripilantes e ouvir: "Ééé... Achei meio fraco". Sabe o que isso quer dizer? TO BE CONTINUED...

Anita Safer

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Calma! Nada de pânico!

Ela estava no trabalho, em uma loja comercial. O dia era como outro qualquer. Movimento regular. Tudo sem grandes sobressaltos, como seu coração, que andava pacato de tudo, sem maiores intenções. Então ela viu um rapaz do outro lado da loja, absorto, olhando umas coisinhas. Ela começou a sentir-se mal. Falta de ar, cabeça rodando, o suor começou a escorrer pela face.
- Não acredito, disse ao colega que trabalhava ao lado. Estou tendo um ataque de pânico. Já tive isso antes.
O amigo, processando a informação e pensando no que fazer, ouviu uma risada. Ela ria.
- Ah não - ela disse - achei que era um ataque de pânico, é igualzinho, mas acho que é só aquele rapaz morto de lindo que tá ali...
Ela me contou isso e rimos muito. Muitos sentimentos e sensações se confundem dentro da gente. Raiva, ciúmes, inveja; podemos colocar todos esses sentimentos num saco só, sacudir e sofrer sem nem saber pelo que exatamente. Sem identificar a emoção e o que há por trás dela, como reagir? Corremos o risco de ter reações desproporcionais, acreditando que o outro é o causador do que nos magoa. Às vezes é mesmo, mas em alguns casos o problema pode estar em nós. Expectativas e idealizações criadas, interpretações erradas, tendência a recriar emoções antigas das quais não nos libertamos.
Citei as emoções consideradas negativas porque são mais comuns de serem ignoradas ou camufladas. A maioria de nós tem um pé atrás com nossos sentimentos "feios". Caramba, sentimento é sentimento, não precisa ser classificado. Ainda bem que eles existem, não somos máquinas. Eles apenas estão tentando dialogar com a gente, nos chamando a atenção sobre algo a nosso respeito.
Acredito que se eu conseguir identificar o que estou sentindo lido melhor com a situação. Mas preciso aprender ainda, porque costumo achar que tudo é fome...haha. Quero aprender a reconhecer meus sentimentos porque eles são meus e "quem pariu o sentimento que o embale", como falam sobre o Mateus. 
Se não soubermos reconhecer o que sentimos corremos o risco de sermos colocados numa ambulância do SAMU e entubados quando, na verdade, sofremos apenas um ataque de belezura causado por alguém que anda entre prateleiras, desconhecendo o estrago que tá causando nas pessoas à sua volta.

Anita Safer
Foto: Érica Perotto

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Aos mestres!

Foto: Arquivo Pessoal de Selma Marques
Não sei se vocês tem filhos. Tenho três, já adultos. Dizem que criar filhos só é difícil nos primeiros cinquenta anos, depois melhora... Hahaha. Adorei esta frase, apesar de não saber de quem é a autoria. A infância e a adolescência são fases em que os pais pensam, em alguns momentos,"de hoje não passa, vou enlouquecer". É muita coisa pra administrar. Aí eu os levava pra escola e lá estavam os professores recebendo - em suas salas calorentas - trinta ou mais meninos como os meus. Que criatura é essa, minha gente, que escolhe ficar cinco horas por dia, no mínimo, com essas pessoinhas cheias de energia, humores diversos, educação (ou falta dela) diferente e ainda ter que repassar a elas um conteúdo?
Trabalhei 33 anos em escolas públicas (na parte administrativa, graças a Deus!!!) e acompanhei de perto a rotina dos colegas professores. Com os que tinha mais intimidade expressava a minha opinião sobre eles com a seguinte frase: "Vocês são um bando de doidos!". Sei que em todas as profissões existem péssimos profissionais, mas a maioria dos que conheci eram pessoas dedicadas e corajosas. Professores precisam lidar com muitas coisas pra enfrentar uma sala de aula. Turmas grandes, falta de material pedagógico, instalações sucateadas, tempo insuficiente pra estudo e planejamento didático; sem falar nos pais de santo (não, não estou falando de religião, mas daqueles pais que juram que seus filhos merecem ser canonizados; esse mesmo filho que tá tocando o terror e inviabilizando o trabalho em sala). Enfim, se dar aula fosse um jogo de vídeo game seriam muitos os desafios pra conseguir passar de fase.
Tenho ouvido direto que pretendem cortar as " regalias" dos professores. Regalias? Que regalias? Cadê? Onde? Estão falando da aposentadoria especial? Se eu fosse professora pediria aposentadoria especial após o primeiro dia de aula... Hahaha. 
A vocês professores, queridos maluquinhos, desejo todas as regalias do mundo, incluindo massagens relaxantes e banheiras de hidromassagem...rs. E se estou aqui escrevendo essas bobeiras a culpa é do Raul, meu professor de Português da sétima série, que fez nascer em mim o amor pelas palavras. 
Valeu, "fessores"!

Anita Safer

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O mato cresceu ao redor

Foto: Arquivo Pessoal
Vou pedir licença e criar uma interpretação de uma canção infantil, pra ilustrar meu momento atual. Por que infantil? Porque to agindo feito criança sobre uma coisa que é pra ser simples, pessoas queridas. É o melô da reeducação alimentar. Vamos lá:

A LINDA ROSA JUVENIL, JUVENIL, JUVENIL... E aí repete, todos os trechinhos são repetidos, vocês conhecem a música e sabem como funciona. Vou poupar vocês das repetições porque vocês não são mais crianças. (No caso, a linda rosa seria eu... Vá... Deixa eu me achar... Juvenil, tudo bem, já é um exagero)

VIVIA ALEGRE EM SEU LAR (Alegre em seu lar significa uma casa cheia de gostosuras e gordices: chocolates, pizzas, refrigerantes... Quase igual à história de João e Maria)

UM DIA VEIO A BRUXA MÁ... E ADORMECEU A ROSA ASSIM (A bruxa má sou eu mesma, meu alter ego, a usurpadora que, num ataque de loucura, resolveu que eu deveria fazer uma reeducação alimentar. Coisas da minha Bruxa de  "Blehhhh" interior)

O TEMPO PASSOU A CORRER... (Só ele mesmo que corre, eu consigo, no máximo uma caminhadinha!)

O MATO CRESCEU AO REDOR... (Essa é a pior parte! Começou a entrar um monte de mato na minha casa! Hortelã, manjericão, salsa - que nem é de dançar, afff... - agrião, couve... Cinquenta tons de verde. Qualquer hora o porteiro interfona e diz "O senhor Hulk tá aqui, pode subir?".

UM DIA VEIO UM BELO REI... E DESPERTOU A ROSA ASSIM, BEM ASSIM... (Aqui nasce a esperança... Venha George Clooney, meu lindo, me acorde, criatura! Bom, mas não to falando de romance. Afinal, romance é romance e um lance é um lance; e o lance em pauta é a reeducação alimentar. O rei em questão seria o IMC - Índice de Massa Corporal - conquistado. Calma, Clooney, aguenta aí que nossa hora vai chegar.

BATEMOS PALMAS PARA OS DOIS... (Que dois? Agora deu medo. Será que desenvolvi uma dupla personalidade? Não sei, também não sei se no final receberei vaias ou os louros... Ah, não! Louro também, não aguento mais tanto mato... Voltemos à estrofe:

O MATO CRESCEU AO REDOR, AO REDOR...

Anita Safer

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Mais redes, por favor!

Foto: Cláudia Barros
Hoje vi uma matéria na TV falando sobre transplantes de órgãos. Eu estava distraída arrumando umas coisas, não prestei atenção direito. Uma cena, porém, chamou minha atenção e tocou meu coração. Um paciente, curado de um câncer, presenteou o médico que o curou com uma rede. Olha que coisa mais fofa, uma linda rede. O médico, visivelmente tocado com o presente disse ao repórter: "Estes pacientes acalantam meu coração". Ambos felizes, um porque estava curado e outro porque ajudou na cura. Compactuavam daquele momento. Ao dar a rede ao médico era como se o paciente dissesse: "O senhor cuidou de mim, agora deixe eu cuidar um pouquinho do senhor". A rede nos remete à imagem de descanso, sossego, ACALANTO. Acalanto é uma variação de acalento. Acalentar significa ninar uma criança, mas também significa suavizar, aliviar, consolar. Este diálogo, cheio de delicadeza, me comoveu pela simplicidade. Atitudes singelas num mundo tão duro. 
Transferindo para a nossa rotina, é aconchegante encontrar alguém que nos ofereça uma "rede", onde possamos ficar quietos, nos refazendo do cansaço das lutas, embalados pelo rangido monótono que o balançar proporciona...REC REC. Esta rede a que me refiro é simbólica, pode ser uma porta aberta, um colo amigo, a simples presença de um querer bem sincero - que nos proporciona um ambiente propício para acalmarmos a alma. 
Roberta Miranda desejou uma "rede preguiçosa pra deitar", quando compôs seu sucesso A Majestade, o Sabiá. Logo Jair Rodrigues, Chitãozinho e Xororó e diversos outros intérpretes entoaram o mesmo canto. Quem não deseja? Eu, que trago o nordeste nas veias sei como uma rede faz bem. E pra quem "acalanta" nosso coração devemos expressar nossa gratidão. Precisamos de mais redes e acalantos neste mundo. Afinal, a falta de paz e acolhimento pode causar males difíceis de serem curados.


Anita Safer

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Vixe, a cobra vai fumar!

Foto: Tina Arce
Um dia estávamos conversando abobrinha em casa e, não sei como, falamos sobre cobras. Eu, inocentemente, disse:
- Gente, essas cobras gigantes são assustadoras, elas matam quebrando os ossos da presa. Ainda bem que elas não mordem.
- Mas elas mordem - responderam.
Como assim, gente? Que absurdo! Aí todos pegaram os celulares e depois de poucas buscas vi em vídeo a realidade nua e crua. COBRAS GRANDES MORDEM, COM SEUS DENTÕES, ANTES DE ESTRANGULAR SUAS PRESAS! Não basta serem geladas, gosmentas, picarem e destilarem veneno. Elas também sabem as manhas da hipnose e até nos expulsaram do Paraíso, as danadas! É muito poder pra um ser. Fico chocada! Chocados também ficam todos, com a minha ignorância. Pessoal, tem muitas coisas que desconheço, por isso "Eis o que não sei" é o nome do meu blog.
Costumam chamar algumas pessoas de cobras, porque cobras são venenosas e dão o bote, quando menos se espera. Espero que não existam pessoas como este tipo de cobra, que agora vejo com outros olhos. Pessoas que não são venenosas, mas que te mordem antes de te sufocar num abraço. Epa! Pensando bem, se for uma mordidinha de leve o conjunto da cena não parece tão ruim; é até romântico...hehe. Peraí, deixa eu voltar ao assunto. O caso é que a ideia é ficar longe das cobras. Vamos deixá-las lá, no ambiente delas, uma engolindo a outra.
Eu falo de forma exagerada,na verdade é uma brincadeira. Todo mundo sabe que nós, seres humanos, somos mais perversos com os animais do que eles são conosco e não tenho interesse em perpetuar a imagem de vilã desta espécie de bicho. Estão apenas se defendendo e tentando sobreviver.
Algumas delas até servem pra salvar nossas vidas. Além do veneno delas ser a cura para o veneno delas - isso é estranho - na década de 60 criaram um famoso anti-hipertensivo com o soro da jararaca.
Sou hipertensa, aí já viu, a pressão subiu... Jararaca na veia. Vixe, será que eu tô provando do meu próprio veneno?

Anita Safer

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Enxaguando os pensamentos

Foto: Tina Arce
Algumas verdades são duras. Incontestáveis. Uma dessas verdades é a seguinte: Louças sujas tem um estranho prazer em se amontoar na pia e ficar olhando pra minha cara. Elas parecem conversar:

PRATO: Ei garfo, vem cá, acho que agora ela vai criar vergonha na cara e lavar a gente.
COLHER: Cala a boca, prato, você é muito chato!
PRATO: Olha aí garfo, lá vem a colher se metendo onde não foi chamada.
GARFO: Fato! Mas acho que essa mulher não vai lavar a gente ainda não, ela ainda nem suspirou; ela sempre dá aquele olhar desolado e faz...affff... curvando os ombros. É a deixa...
O copo, com aquele bocão, não consegue fechar a boca e diz:
COPO: Cara, aposto que quando meu último camarada chegar na pia ela toma uma atitude.

Aí eu chego na cozinha, curvo os ombros e suspiro...afff. Vejo que a bagunça tá armada, um por cima do outro. Comemorando, eu acho. Aí entra em cena o ensinamento da tia Zê. Ela é avó dos meus filhos e... Imagina uma pessoa organizada! Tentou me ensinar muitas coisas. Para arear panela de alumínio tem que usar uma certa força, até a bunda mexer, ela dizia. Eu ficava lá, me achando a Anitta. Prepara! Tentar chegar ao naipe da tia Zê é como apostar corrida com o Bolt, não dá. Mas uma coisa que ela me ensinou eu incorporei. Na hora de lavar a louça eu organizo tudo. Prato com prato. Talheres aqui, copos bocudos ali e vou lavando por itens. Incrível! Muito melhor!
Aí começo a lavar e divagar. Bem que eu podia aplicar o método "Zê Bolt" pra organizar meus pensamentos. Eles ficam todos bagunçados, misturados na minha cabeça. Eu deveria (depois do afff) organizá-los e lidar com um de cada vez. Primeiro jogar os restos no lixo. Limpar, enxaguar, secar as ideias. Olhar pra minha mente toda limpinha, toda bonitinha. Que maravilha!
Pensamentos desnecessários são como louça suja, vão te importunar até você tomar uma atitude em relação a eles.

Anita Safer

Sobre o amor

Foto: Arquivo Pessoal de Liana e Vítor Perotto
Será que faz sentido falar sobre o amor? Parece que já falaram tudo. Em prosas, versos, canções, filmes. Às vezes ele esbarra na gente e a gente cai. Cai e se entrega; com ele saímos de mãos dadas pro cinema, pro parque. Estalam-se beijos, apertam-se abraços, fortalecemos os laços.
Nas novelas o amor é sempre difícil, há sempre uma terceira pessoa minando o amor do "casal principal". Aí eu ando na rua e ouço uma moça falando pra outra, tal qual roteiro de novela das oito, que passa às nove: "Ele pode não ficar comigo, mas com ela ele não fica. Espera só pra ver quem vai ganhar essa briga". Ah, esse tom raivoso... Ele destoa tanto da palavra AMOR. Amor me parece uma palavra livre, que brinca, mas se compromete, que voa, que deixa chegar e partir. Porque amor que é amor não precisa aprisionar. De que adianta manter ao seu lado quem quer partir, viver outras histórias, carregar seu amor pra outro canto? Porque o amor é de cada um, ele não pertence ao outro. Daí o tal do amor próprio. Cada um com o seu. Não adianta querer prender o outro se não for a vontade dele, ele pode até ficar com você, mas o amor dele não estará ali. O amor gosta de ficar onde se sente bem.
Talvez eu esteja errada e a moça certa. Vai que o amor é como uma luta de vale tudo, ou uma corrida com obstáculos. Se for isso, sem problemas, não faço o tipo esportivo. Mas se for um jogo prefiro que a pessoa esteja jogando no meu time, onde possamos enfrentar juntos os embates da vida.
Prefiro juntar o meu amor com o amor de alguém que o queira e aí ir ao cinema, compartilhar pipocas e beijinhos.

Anita Safer