quinta-feira, 18 de abril de 2024

Sabe o que eu estava pensando?

 





Perto de onde moro, um homem está sempre sentado de manhã. bem cedinho. Às vezes faço o trajeto por onde ele costuma estar. Sempre na mesma posição, como se tivesse sido esculpido por Rodin. O Pensador. Parece ser uma pessoa em situação de rua, mas noto que está sempre com um lanche por perto e, relativamente, bem vestido. Uma lona, uma mesinha, uma cadeira. Como uma casa itinerante. Minha mente vai chegando perto, carregada de pensamentos; me aproximo do local e o avisto, meus pensamentos param. É como se não quisesse que o meu barulho mental atrapalhasse os pensamentos dele. Como se houvesse uma placa imaginária avisando: Silêncio, ele está pensando. 

E começo a divagar. Existe um mundo onde moram os pensamentos? Os meus, os seus, os dele? Eles ficam numa espécie de nuvem? Se amontoam fazendo barulho como uma revoada de pássaros? Nós os jogamos para o alto ou eles caem dentro de nós? Talvez passeiem pelo espaço, como em ondas de rádio. Volta e meia percebo um pensamento que não é meu. Opa! Por que estou pensando nisso? - penso.

E quando nossos pensamentos chocam com outros pensamentos de pessoas conhecidas?

- Que coincidência, estava pensando em você agorinha.

- Eu também.

Quando estou meditando, eles - os tais pensamentos - ficam me rodeando. São como meninos travessos, proibidos de entrar em um quarto. Eles tentam de todo jeito, sorrateiros. Mas quando eles dão um sossego... ah, que momentos de paz! É bom pensar; do pensar surgem ideias, soluções... às vezes surgem problemas que nem existem também, não vou negar. De repente começo a pensar "abobrinhas". Acho engraçado esse termo, "falar abobrinhas". Dizem que essa expressão  surgiu na época em que nossa moeda ainda era o cruzeiro e a inflação imperava. Será que as pessoas só conseguiam comprar abobrinhas e só falavam disso?...rs. Eu penso em cada besteira.

Pensando bem, por que estou escrevendo tudo isso? Mas acho que penso porque existo, né, Descartes? E assim vai...


Anita Safer


terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

O trajeto e o destino

Foto: Érica S.

Ah, a vida! Ela é como uma viagem que você faz todo ano para o mesmo destino. A estrada é a mesma mas, de repente, aparecem uns buracos que antes não existiam. Pode ser que o carro quebre, que a gasolina acabe. Voos cancelados. Coisas inesperadas costumam acontecer. Muitas são bem chatas. Te desanimam. Você amaldiçoa. Algumas fazem com que você aprenda a se precaver. Evita alguns trechos, busca novas rotas. Leva itens que não levava antes. Uma lanterna, um galão vazio para gasolina. Isso se chama experiência. Em outros momentos surpresas boas acontecem. Abrem uma franquia de um restaurante que você adora, bem na beira da estrada. Você percebe que a paisagem está mais bonita, que as árvores - que antes eram pequenas, agora estão grandes e frondosas. É a vida sendo vida, como diz um jovem sábio.
A gente sofre quando vive na expectativa de que a viagem seja perfeita. Ela nem sempre será. Mas o destino final nos puxa, nos atrai. Podemos seguir acompanhados ou sozinhos. As companhias podem ser boas - ou nem tanto. Depende do trecho, depende das escolhas. O ideal é levar uma bagagem leve, mas com tudo o que for preciso pra enfrentar os desafios da travessia. Não dá pra controlar tudo. Pode acontecer um acidente fatal, que nos tire do trajeto antes do planejado. O recomendável é ter cuidado, mas sem perder a coragem e o entusiasmo. Afinal, a estrada pode ser longa, mas só pode ser percorrida um dia de cada vez. O jeito é curtir o que der pra curtir, se chatear quando for o caso e seguir adiante. E lá vou eu, com meu carrinho 1.0 (só metaforicamente, porque viagem literal não está rolando no momento...hehehe). Boa viagem a todos nós.

Anita Safer

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Uma pequena investigação botânica

 


Foto: Tina Arce

Quando eu ainda era uma menininha, do alto da sabedoria dos meus onze anos de idade, escrevi meu primeiro livro. O título era Uma Árvore chamada Aninha. Basicamente, era a história da semente de uma árvore que brotou em um planeta onde não havia árvores e a surpresa das crianças com a aparição daquela coisa que ninguém sabia o que era. Bom, o fato é que o livro foi um sucesso de público - leia como público o meu irmão mais velho, que foi o único a quem tive a coragem de mostrar meu best seller. Meu irmão, maravilhoso, sempre me incentivou. Mas foi um fracasso de crítica, porque ele mostrou a um amigo, crítico literário, que de início já não gostou do título. Achava que deveria mudar para Uma Árvore chamada Esperança – Epa, peraí! Esperança pra mim era o nome daquele inseto que eu confundia com louva-Deus...Deus me livre...hahaha. Resultado, foi o meu primeiro livro não publicado, seguido de diversos outros que vieram a seguir; também não publicados, para seguir uma linha de conduta...rs.

Por que lembrei disso? Quase sempre faço o mesmo trajeto nas minhas caminhadas. De repente, percebi umas pequenas árvores que nunca tinha reparado que estavam lá. Fiquei curiosa. Elas tinham uns troncos bem fininhos com umas folhas bem grandes. Tirei uma foto e acionei um exército de pessoas entendidas nesses assuntos arbóreos. Nada. Ninguém sabia. Eram muitas as suspeitas. Seria um ipê-roxo? Nem a mais bambambam no assunto conhecia a planta.

A tal planta tentou ser misteriosa em vão, porque minha irmã, Tina, é uma ciclista observadora de paisagens que percorre toda a parte norte da cidade. Fazendo seu passeio por um parque ela reconheceu a tal árvore, que tinha uma placa de identificação: Sterculia Striata (cujo nome popular é Chichá do cerrado). Nada como uma irmã ciclista e investigadora botânica.

O fato é que passando por elas hoje, me lembrei do livrinho que escrevi. Me lembrei também da criança que eu era e que se perdeu um pouco no decorrer da vida. Retomei, por uns instantes, a minha capacidade de maravilhar-me com as árvores e comecei a olhar uma a uma. Suas folhas, suas flores. As nativas do cerrado, tão lindas, com seus troncos retorcidos.

Não olharei mais para uma Chichá da mesma maneira. Para mim ela agora será uma Aninha. E o crítico estava certo; uma árvore é, sim, uma esperança.

 

Anita Safer

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

O céu da minha infância

Foto: Tina Arce

Estava no ônibus interestadual. Pela janela via o céu e suas nuvens branquinhas de algodão doce. Minha mente viajou para o passado.

Me vi deitada na grama da minha infância olhando pro céu. Horas eram usadas nesse exercício. As nuvens passavam vagarosas, fazendo e desfazendo formas. Um bicho aqui, um objeto ali. Jesus acenando.  Meu Deus, Jesus está desmanchandoooo! Às vezes ficava sozinha; em outras algum coleguinha também participava do doce delírio e tentávamos compartilhar impressões. Nem sempre conseguíamos ver a forma que o outro via, mas era uma festa quando isso acontecia.

Eu acreditava que o céu e as nuvens estavam ali pra me servir. E quando era a noite, achava que o som que os grilos emitiam era o som das estrelas. E elas brilhavam pra quem? Pra mim, é claro. Eu era o centro do Universo, pelo menos do meu Universo...rs.

Lembro da minha decepção quando o céu resolveu desaguar e transformar em lama meu caminho em direção à igreja. Como ele pôde ser tão insensível? Era o dia da minha primeira comunhão. Eu estava muito compenetrada com aquele acontecimento. Desejava ser uma freira, quiçá, uma santa. Os respingos de lama sujariam meu longo vestido branco e meu sapato branco novinho. Era um sapato envernizado. Que desaforo! Mas não foi um respingo de lama que destruiu meu sonho de santidade. Um primeiro beijo  jogou por terra minha suposta vocação.

É bom relembrar esses momentos. Faz minha criança interior sorrir. Hoje olho a imensidão do céu e ele sorri de mim. Porque ele sabe que eu irei embora em algum momento e ele irá continuar. Ontem eu olhava de baixo para ele lá em cima. Hoje ele olha lá de cima para mim. Mas no futuro, eu já tendo virado pó, quem sabe minhas partículas subam em direção à imensidão e eu me junte ao céu? Seremos um só, passeando pelas galáxias, vendo das alturas as pessoas lá embaixo olhando para nós, achando que estamos bem acima e distantes. Essa distância é uma ilusão. Carl Sagan já dizia que somos feitos da poeira das estrelas. Logo, eu e você não somos o centro do Universo, mas fazemos parte dele. 



Anita Safer.

domingo, 23 de julho de 2023

A sinfonia do... então, tchau!

Foto: Morgana Guimarães

Fui assistir  uma apresentação de uma orquestra de câmara um dia desses. Aqui em Brasília a orquestra sinfônica do Teatro Nacional tem promovido esses eventos. O que é quase maravilhoso. Digo "quase" porque as apresentações da orquestra do Teatro Nacional NÃO acontecem no Teatro Nacional. Aquele teatro lindo - em forma de pirâmide cheia de quadradinhos, uma lindeza arquitetônica e cartão postal da capital federal - está fechado desde 2014. Lá assistia  peças e apresentações memoráveis. Como a vez em que minha irmã fez uma chapinha pra assistir uma peça onde atuaria Thiago Lacerda. Vai que ele olharia pra ela. Quem sabe? Final da peça veio o comentário: "Ele não me viu, mas quando ele gritou CALÍGULAAAA... meus cabelos trabalhados na chapinha balançaram ao vento..."kkk. Vou voltar agora à orquestra de câmara (desculpem a divagação, sou mestra nesta arte). Uma das peças apresentadas foi o final da Sinfonia n° 45, de Haydn, conhecida como Sinfonia do Adeus. Eu nunca tinha assistido, então foi um susto quando os músicos, durante a apresentação, foram saindo aos poucos do palco. Saía um, saía outro, às vezes dois ao mesmo tempo. E eu pensando, gente, o que está acontecendo? Será que comeram alguma coisa estragada? Só ficaram dois no palco. Aí minha filha, que é muito sabida, disse: Saquei, é a sinfonia do adeus. Eles estão dando um "então, tchau" e indo embora. Nossa, achei genial. No folheto da apresentação tava lá, explicando tudinho. Eu sempre tenho preguiça de ler antes. A sinfonia foi escrita por Haydn baseada numa história real. Ele tinha um príncipe como patrono, que fazia umas estadias danadas de demoradas no verão em um palácio remoto, lá na Hungria. Os músicos, coitados, tinham que ficar lá, apresentando, longe de suas famílias. Aí ele bolou essa sinfonia, onde os músicos iam saindo à francesa. Foi um jeito esperto de mostrar pro príncipe que aquele programa tava demorado demais. E o príncipe sacou a mensagem. Que menino esperto, esse Haydn. Aí fiquei pensando. Quantas vezes na vida a gente dá uma de Haydn e vai saindo de fininho de alguma situação que tá meio chata. Às vezes é a melhor maneira de sair, sem estardalhaço, sem estragar uma relação que nos é cara, mas que não tá muito legal naquele momento. E isso vale nas diversas áreas do relacionamento. Mas pensei também em como a arte encontra maneiras de protestar e se posicionar no decorrer da história. Às vezes protestos em forma de gestos, de músicas, de poesias ou qualquer outra forma de manifestação artística. Por essas e outras amo a arte, ela nos transporta, nos instiga, nos inspira. Sem ela o mundo seria um lugar muito mais árido para se viver. Agora, vou saíndo de fininho, antes que vocês me mandem para um palácio qualquer nos confins da Hungria... Então, tchau!

Anita Safer

terça-feira, 16 de maio de 2023

Uma herança e uma bênção

Foto: Liana Rocha 



Não sei quanto a vocês, mas, quando olho para um objeto antigo, minha alma viaja. Minha mente começa a imaginar em que momentos da vida de alguém ele esteve presente. Foi fonte de alegria? Quantas mãos o utilizaram? Como ele resistiu ao tempo e chegou até aqui? 
Uma máquina de costura bem antiga estava entre os itens que minha amiga Sílvia estava doando. Ela fez um encontro de desapego com algumas amigas - eu, inclusive - pois queria que a gente visse se queríamos alguma coisa. Uma amiga nossa, inicialmente, ficaria com a máquina, mas sentiu que não a usaria por falta de tempo e não queria prejudicar o fluxo da história de vida daquela máquina, que era cheia de encanto. Em frente àquela máquina de costura, a mãe de Sílvia sentava-se, às vezes, dia e noite. Ela mirava uma lanterna para iluminá-la quando a luz do dia ia embora. 
Os carretéis de linha bailavam, a agulha subia e descia, pespontava, ziguezagueava, dava forma a tecidos, que, magicamente, transformavam-se em lindas peças. Lindo também devia ser o brilho nos olhos da Sílvia menina que, de tanto observar, foi aprendendo aquele ofício e se tornou a herdeira daquele tesouro. Agora era o tempo de passar adiante aquela máquina. Não havia uma herdeira natural. Não haviam olhos brilhantes costurando sonhos e ideias ao ouvir o som do motor, a cada pedalada. Sílvia conversou em pensamento com sua mãe, que já está em outro plano, e pediu que ela escolhesse quem seria a pessoa que herdaria a máquina. Eu acredito nessa energia boa que o pensamento promove, unindo existências. É como se um roteiro, cheio de magia, fosse sendo escrito. E assim a mágica se fez. Comentando com minha nora Liana sobre a máquina, os olhos dela brilharam, talvez como os olhos da pequena Sílvia brilharam um dia. As duas têm a mesma raiz; foram criadas ao som de uma máquina de costura e ao som do samba. Interesses trazidos pela ancestralidade unem, no curso das vidas, pessoas afins. Agora Liana está feliz e cheia de planos. Sílvia também está feliz, por sentir que sua escolha foi abençoada. Como a vida é poesia quando vivida com a alma e com o coração!

Anita Safer

terça-feira, 4 de outubro de 2022

Ao pé da letra

 

Desenho inspirado em imagem do Google Imagens

Hoje me peguei sentindo saudades das letras (acho que é porque estou treinando lettering, que é a arte de escrever letras em estilos diversos - é a minha atividade neste momento, minha estranha mania de fazer atividades diferentes a cada semestre...rs). 

O mundo digital, há pouco datilográfico, expulsou para as paredes das lembranças, as boas e velhas letras escritas de forma cursiva. Aquelas letras que eram esperadas nas cartas de amor; que identificavam os amigos e parentes. 

Nas escolas as letras ainda teimam em existir, ainda que a contragosto das crianças da nova geração, que têm pressa e consideram desnecessário todo aquele esforço de bailar o pulso, com uma caneta em punho, para fazer desenhos em um pedaço de papel - e, vamos combinar, aquele quadro cheio de letrinhas cansa mesmo. É muito mais atraente e rápido passar os dedos por um teclado, cada vez mais futurista. Nos celulares as palavras querem formar-se sozinhas. Muitas vezes, O tal corretor ortográfico nos faz enviar mensagens absurdas e comprometedoras, como "Que Deus te elimine" ao invés de Deus te ilumine; vai que é um ato falho tecnológico...rs 

Mas, voltando à nostalgia deste meu momento, lembro que o meu primeiro amor escrevia lindamente o número 2. Vamos dar um desconto, quando apaixonados achamos tudo lindo. Me recordo da letra bem desenhada da minha mãe. Ela foi alfabetizada mais tarde, então, escrevia seu nome com muito capricho e orgulho. As letras são tão variáveis e pessoais! Algumas têm pressa e passeiam quase deitadas, como se fossem motos fazendo curvas em um campeonato. Outras são pequenas, tímidas. Existem as altivas, longas, firmes. As enigmáticas, como aquelas de alguns médicos, em que se juntam alguns atendentes na farmácia tentando decifrá-las, como se fossem personagens de um filme do Indiana Jones. Soube de um médico que foi procurado pela enfermeira para falar sobre um medicamento que havia prescrito e ela não estava entendendo. O médico, com seus óculos na ponta do nariz, tentava, em vão, decifrar a própria escrita; quando a enfermeira avisou: Doutor, o papel está de cabeça pra baixo...

Minha neta agora está aprendendo as primeiras letras. Lindas letras espelhadas, que vão para onde querem, assim como ela. É a liberdade infantil, antes de sermos condicionados para que o mundo nos valide. E temos que aprender a escrever e também a ler, pois todos sabem, escreveu e não leu, o pau comeu... O que é não é uma verdade absoluta, pois convivo com uma pessoa que não sabe escrever nem o próprio nome e, no auge dos seus 84 anos, não nasceu ainda um ser humano capaz de passá-la pra trás. A sabedoria e inteligência são superiores às convenções. 

Escrevo essas bem traçadas linhas, para dizer que sinto saudades das cartas, de reconhecer as pessoas queridas pela forma como escrevem seus "as" ou "xis"... 

Me despeço agora, digitando essas letrinhas, sem ter a oportunidade de colocar os pingos nos is, aqui os is já vêm prontinhos. Mas vejo as letras aqui formadas, são as irmãs mais jovens das antigas cursivas e desenhadas com nossas mãos. Elas também formam palavras. Palavras formam ideias, mas esse assunto fica pra outro momento. Três pontinhos.


Anita Safer


sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Cat Café em Brasília

Fotos: Liana Rocha

A vida é uma experiência diária. Embora ela pareça ser a mesma o tempo todo, ela nos surpreende, aqui e ali, com delicadezas. Talvez a vida seja como um gato, às vezes preguiçosa,  às vezes arisca, divertida, mas sempre bonita e misteriosa. Acarinhar um gato (quando ele permite, é claro, porque são eles que mandam na relação...rs) é tão gostoso quanto o cheirinho de café, que acabou de ser coado.  São sensações que aquecem a alma.
Minha nora me convidou para conhecer um lugar que descobriu em Brasília. As cidades, assim como a vida, são cheias de descobertas a serem feitas. Eu, claro, topei na hora. É sempre bom conhecer novos lugares.  
Fomos ao Betina Cat Café, na 409 Norte. O lugar é cheio de encanto e ternura. Logo ao chegar fomos recepcionadas pela Bárbara. Muito atenciosa e prestativa.  Ela nos explicou como era o lugar; isso aconteceu na frente de uma vitrine de vidro.

Lá dentro, gatinhos diversos, num espaço todo preparado pra eles; brincavam, ou dormiam, ou comiam suas rações. A proposta do lugar é unir essas duas experiências, oferecer um ambiente gostoso para um bom café, e proporcionar aos gatinhos (que são vacinados e castrados) a oportunidade de encontrarem um lar. Quem se interessar, pode se candidatar à adoção de um deles. Olha que objetivo nobre. Amei!

Fomos fazer nosso lanche. Todo o ambiente remete aos lindos bichanos. Numa parede estão as fotos dos bichinhos que já foram adotados. Os copos, talheres, doces, a decoração, tudo tem os gatos como tema. Minha neta ficou maravilhada. Pagando uma taxa, você pode entrar, por alguns minutos, no ambiente que os gatinhos ficam. Ela, claro, quis aproveitar e brincar com aquelas lindas bolas de pelo. Eles são muito bem cuidados. Tem até um banheiro privativo pra eles, acreditam nisso? Um luxo.


Deixo, então, a dica para os amantes de gatos. É uma experiência gostosa e diferente. Caso tenha curtido a sugestão, vá lá e tome um café "gatoso"... hahaha. 

Anita Safer

domingo, 11 de setembro de 2022

No balanço das marés

Foto: Paty Arce 

Fui tomar um café da manhã com amigos. A ocasião era o aniversário de uma das amigas, muito, muito amada. Ela nos contou que estava numa fase mais reclusa, sem pensar em grandes comemorações e festividades. Então, outra amiga contou que os antigos da terra dela usavam a expressão pré-mar para designar o momento entre a maré baixa e a maré alta. Onde a sensação é de que está tudo quieto. Achei linda a expressão e o significado dado a ela. Cheguei a pesquisar, mas não encontrei nada que falasse a respeito. Mas, isso não tem a menor importância, quem somos nós para questionar a sabedoria popular, tão poética e que busca palavras e expressões que tentem fazer com que entendam as coisas do mundo. O interessante é que quando chegamos, meus amigos sentiram um cheiro de peixe, vindo de algum lugar. Eu não senti porque estava com o nariz congestionado, mas incluímos esse fato às nossas teorias de que existe uma conexão entre todas as coisas.
A conversa, então, se desenvolveu neste sentido. A vida é cíclica, como o mar. Momentos de mar agitado, de mar calmo, ciclones, ressacas (que nos livramos, no caso, porque ficamos só no cafezinho mesmo...rs). Então, demos as mãos - era um momento em que a emoção tomava conta do ambiente e queríamos trocar aquela energia gostosa, que acontece quando estamos entre pessoas queridas, com quem podemos compartilhar o que sentimos. O rapaz, que nos atendeu, se aproximou. Sentiu o clima e, cheio de sensibilidade e bom humor, comentou que havia chegado pra participar de um momento especial. Olhei para o crachá dele e o seu nome era Moisés - hahaha, ele veio para abrir as águas.
Nos divertimos com a ideia e isso foi papo para muita filosofia de café. E vem aquela sensação gostosa de que está tudo mesmo interligado. O importante é saber que as marés vêm e vão. E nessa malemolência, no balanço do mar da vida, vamos conduzindo o leme do nosso barco da melhor maneira que conseguirmos, rumo ao nosso destino. Quanto ao que não podemos controlar, lembro da frase de um amigo muito querido e engraçado que falava... "Jesus disse, faça a sua parte que eu fazerei a minha"... rs

Anita Safer

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

E aí. bicho?



Foto: Tina Arce

 A notícia aparece e, mais uma vez, fico estarrecida. Porcos selvagens invadem Shopping Popular. Lá estão os "invasores", com seus focinhos de tomada, patinando no chão liso e frio do banheiro, onde foram confinados, aguardando o resgate da Polícia Militar Ambiental.

A capivara nada no espelho d'água do Palácio do Itamaraty, sacudindo suas gordurinhas, talvez, numa tentativa "diplomática" de aproximação. O jacaré nada, tranquilamente, na piscina de uma casa. Lembro, imediatamente, de uma música infantil:

"Jacaré nada na lagoa, ele diz: Ai, meu Deus que coisa boa! Mostrou os dentes! Se preparando para morder a toda a gente".

Ops, isso é meio assustador para as crianças; então mudaram o final para:

"Se preparando para escovar os dentes"

Agora sim, ficou mais didático e preservou a imagem do coitado do animal, a quem é atribuída uma má fama. 

Jiboias em carros e casas, saruês para lá e para cá, corujas metendo o bico onde não deviam. Toda espécie de bichos invadindo o "nosso território".

Na quadra onde moro um urubu dá o ar da graça. Dei a ele o nome de Alfredo, sem um motivo especial, só me veio esse nome à mente, do nada. Um rapaz aqui do meu prédio, que todos chamam carinhosamente de Lourinho, é uma espécie de São Francisco de Assis. É comum vê-lo rodeado de passarinhos, pequenos, gordinhos e saltitantes. Uma lindeza de ver. Ele os alimenta e é adorado por eles. "Alfredo", curioso, também se aproximou e logo fez amizade. Em outro momento, lá estava ele - Alfredo, não o Lourinho - empoleirado na janela do sexto andar da casa da minha irmã, que mora em um prédio próximo. Ele deve ter percebido que meu cunhado é um excelente cozinheiro e prepara carnes deliciosas.

Embora eu esteja brincando, a situação é muito séria e triste. Nós invadimos os espaços desses animais. Queimamos - ou deixamos queimar - os lugares onde vivem. E ainda nos referimos a eles como invasores. 

Shopenhauer, o filósofo, estava certo quando disse:

" O homem fez da terra um inferno para os animais"


Anita Safer

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

O Tempo

Foto: Liana Rocha

 - Oi! Quanto tempo, né?

Meu computador mental tenta achar a resposta. Faz muito tempo? O que seria muito tempo? Não consigo lembrar o tempo exato, mas respondo de pronto.

- Verdade. Um tempão...

O tempo e seus enigmas. Às vezes dizemos que ele está passando rápido demais. Minha mente - muito imaginativa - começa a imaginar o tempo, todo apressadinho, com os cabelos ao vento, olhando para o relógio (sim, o tempo tem um relógio, no meu delírio.... hahaha); ele passa voando, com sua pastinha debaixo do braço. O tempo corre...

Mas às vezes dizem que ele passa devagar. Lá vai o tempo caminhando a passos lentos, com seus fones de ouvido, ouvindo um reggae. De chinelão, ele não dá a mínima para algumas pessoas que estão aflitas, loucas para ver logo a pessoa amada, ou, quem sabe, o resultado daquela entrevista que fez.

O fato é que o tempo não tem tempo para nossas necessidades. Ele segue, no tempo dele; não temos ideia de qual seria. Só sabemos que a noção que temos a seu respeito muda, de acordo com o momento que estamos vivendo.

Minha irmã diz que o tempo é relativo, depende de que lado da porta do banheiro estamos...rs

Faço sempre uma lista de compras antes de ir ao mercado. Uma forma de não me distrair quando chegar lá e não sair feito uma doida, que coloca todas as gordices no carrinho. Abro o armário e vejo se ainda tenho arroz, ou se preciso comprar. Faço assim com os demais itens. Mas o tempo não está confinado dentro do armário. Não consigo ver a quantidade de tempo que ainda tenho. Nenhum de nós sabe disso, com certeza.

Costumamos dividi-lo em passado, presente e futuro. Mas, para mim, ele está presente em todos os tempos. Ele se faz presente nas lembranças do passado e nas expectativas do futuro. Quando presto atenção, lá está ele, sempre a postos, batendo os pés no chão. Em alguns momentos é magnânimo e valioso; como quando estou com as pessoas que amo, quando faço algo significativo ou quando tento ser uma pessoa um tiquinho melhor. Ah, esse é o melhor tempo do mundo!

Eu sigo de mãos dadas com ele, nos bons tempos e nos tempos ruins. Não posso apressá-lo e nem detê-lo. Ele vai deixando em mim as suas marcas. Por quanto tempo? Só o tempo dirá...


Anita Safer



domingo, 4 de julho de 2021

Karatê: Um golpe no sedentarismo


 E lá venho eu com minhas estranhas e maravilhosas manias. Sortear uma atividade nova para fazer. Dessa vez peguei minha caixinha de atividades e pá... tirei um papelzinho... KARATÊ. Lasquei-me. Sabe aquela coisa que você morre de medo de fazer? Pois é. Morria de medo de sortear alguma arte marcial. Se eu tenho medo, por que coloquei na caixinha, você me pergunta? Porque eu não regulo muito bem, essa é a verdade... hahaha. O importante é o desafio. Não tenho histórico de atleta, joguei meu handebolzinho na adolescência, mas só pra não reprovar em Educação Física. 

Mas, vamos lá. Nesse momento fui salva, em função do isolamento social. Aula presencial de karatê, nem pensar! Arrumei uma desculpa perfeita. Mas não quis fugir totalmente da raia, e hoje não temos mais desculpas, tudo se encontra nas mídias. Vou lá procurar um vídeo de aula de karatê online. Achei!

Gente, que surpresa boa, acreditem. E cá estou eu, seis meses depois, tendo treinado três vezes por semana, para dar o meu relato. Encontrei os vídeos do André Maraschin. Minha sala é pequena, mas tudo bem, também tenho braços e pernas curtos. Fiquei encantada com a maneira cuidadosa com que ele ensina. Respeitando as limitações de cada um, afinal, nem todos que assistem aos vídeos têm a ambição de se transformar em um Bruce Lee (mestre das artes marciais, que nem karateca era, parece...rs) - eu até queria, mas minha cara de pau não chega a tanto. E entre chutes e golpes os gatos se assustavam, às vezes, ou ficavam curiosos tentando entender o que a doida estava fazendo. No início tudo doía. Eu andava igual à uma mulher parida. Mas com o tempo fui me sentindo bem e até desejando que chegasse a minha hora de treinar. 

Acho bonito ver alguém que tem a humildade de ensinar o que sabe, no caso do André. E, de certa forma, me orgulho de ser alguém que tem a humildade de aprender. Por isso, prestei muita atenção às coisas que ele dizia, tanto quanto o empenho nos exercícios.

- Ser enérgico,  forte, e ao mesmo tempo, suave;

- O segredo é a repetição para atingir a perfeição (isso vale para tudo na vida!)

- É importante desenvolver as habilidades físicas; (importante para mim, a senhora intelecto...rs)

- Disciplina - fazer o que precisa ser feito;

- A persistência do treino você leva para a vida

Persistência. Uma palavra fraquinha de tudo no meu vocabulário. Mas, veja o que aconteceu. Diminui tremendamente meu vício em refrigerante. O karatê deu um gás pra isso. Entendeu o jogo de palavras? Troquei um gás (do refri) pelo gás que o karatê me deu...rs.

Concluí meu seis meses nessa atividade. Me despeço dela com gratidão. Especialmente ao André Maraschin, que, sem saber, foi meu mestre por todos esses meses. Que ele saiba que sua atividade pode transformar vidas. Agora parto para outra atividade e novos aprendizados. Mas, quem sabe, passada a pandemia, eu procure uma academia e, aí sim, me aguarde, Bruce Lee.


Anita Safer


https://www.youtube.com/user/marascas

segunda-feira, 21 de junho de 2021

 


Estelionato é uma palavra oriunda do termo em latim stellionatu, que significa uma prática criminosa. Desde que o mundo é mundo, os sujeitos dados a essa prática existem. Com o passar do tempo eles vão se aprimorando em seus métodos e hoje estão tecnológicos. Invadem seus celulares, roubam suas senhas. Alguns estão lá, presos nas cadeias do país, mas mesmo assim tocam o terror. Simulam falsos sequestros, deixando as pessoas apavoradas. Há um tempo atrás era comum o golpe do bilhete premiado. Outros vendem casas na praia, ou carros inexistentes. E, para cada golpista, há algum desavisado, que cai em sua lábia ou clica em um link falso. A tentação é grande quando oferecem algum prêmio fácil, grande e miraculoso, que pode te tirar da pindaíba. "Pindaíba", agora entreguei que sou das antigas... hahaha. Esse termo é de 1800 e qualquer coisa e eu continuo usando, só pra passar vergonha. Mas nem todo mundo é descuidado e cai nas manhas desses bons de lábia ou hackers do mal. Dona Maria é uma senhora esperta. Ela nunca estudou e não sabe escrever ou ler. Nenhum A. Nada. Mas o que lhe falta em estudo, sobra em sabedoria. Ela, beirando os 80, na época, ouviu palminhas na porta de sua casa. Morando sozinha, ela foi até lá ver quem era. O rapaz, todo bem vestido, muito simpático, iniciou o diálogo:

- Dona Maria de tal e tal? - perguntou falando seu nome completo. Ela fez que sim com a cabeça. 

Ele então continuou - Sou servidor do INSS e vim aqui para realizar sua prova de vida, para que a senhora não precise se locomover até a agência. Para isso só preciso que a senhora me mostre o seu CPF.

- Peraí que vou buscar o meu CPF, moço - ela disse. E voltou com uma vassoura na mão e deu umas vassouradas no rapaz pra ele deixar de achar que ela era besta. 

- Sou analfabeta mas não sou burra. Acha que não assisto jornal e que sei que não posso passar meu CPF pra qualquer um? - ela me disse, contando o acontecido. 

Depois de reportar o fato à sua filha, foram até o prédio do INSS. Tinham que denunciar a prática criminosa e realizar a tal prova de vida. Quiseram logo falar com o gerente, ou o chefe, ou sabe-se lá quem era o superior da sessão. Ele as atendeu com toda a educação. Mas, o mais curioso de tudo, era que o rapaz denunciado trabalhava mesmo no INSS. Tinha sugerido essa missão para facilitar a vida dos idosos. Uma sugestão nobre e, agora via, extremamente perigosa. O gerente expôs a situação para toda a sua equipe e elogiou a atitude de Dona Maria, que provava para todos que estava muito viva mesmo. E a ideia do nobre rapaz foi descartada, não passou no teste de Dona Maria. Outro exemplo de sabedoria e, pasmem, bom humor, aconteceu um dia desses.

Minha irmã contou, aconteceu com ela. Sei que um golpe desses não é assunto para rir - muitas pessoas são prejudicadas por esse mesmo golpe - mas, este, em especial, teve um desfecho curioso. É o mais comum golpe da atualidade. Eles ligam dizendo que são do seu banco e que alguém fez uma compra indevida em seu nome. O valor é alto, dizem, então precisam recolher seu cartão, para emitir um novo. E, "para sua comodidade", enviarão um funcionário em sua residência para pegar o cartão. Vocês devem conhecer bastante essa prática, é noticiada sempre na TV. Naqueles dias, tinham ligado algumas vezes para minha irmã. Ela até que estava quase acreditando na história, porque é muito convincente mesmo. Até porque eles pedem pra você ligar no número que está em seu cartão bancário, para confirmar que é mesmo do banco. Você liga e cai sabe onde? No contato dos golpistas. Eles conseguem fazer isso, é inacreditável! Por esta razão, quando isto acontece, os delegados dizem que você deve ligar de outro aparelho para o banco, porque eles conseguem puxar a ligação do seu aparelho, de onde falavam com você. Prosseguindo... Minha irmã recebeu outra ligação. Ela já tinha entendido a jogada, estava entediada com a pandemia e resolveu dar trela para a bandida, só pra ter alguém com quem trocar umas ideias. Segue o diálogo:

A golpista: Senhora fulana de tal? Aqui é do seu banco e observamos uma movimentação suspeita em sua conta. - Começou a relatar a moça, com voz de moça bancária, vamos dizer assim.

O conteúdo restante nem vou relatar, vocês já sabem como é. 

Minha irmã respondeu: Nossa, já tentaram esse golpe comigo a semana

passada 

Ela: E a senhora caiu?

Minha irmã: De jeito nenhum, e olha que a outra pessoa era mil vezes melhor que você. 

Ela: A senhora acha que eu tenho que melhorar? Está ruim? 

Minha irmã: Pra ficar ruim falta muito. Moça, só pra acelerar, no final você vai pedir o cartão, não é? Vamos marcar?

Ela, por fim: Eu não, pra senhora chamar a polícia? E desligou rapidamente o telefone. 

Ri muito dessa história. Como canta lindamente Diogo Nogueira - com seus belos olhos verdes a música de Bezerra da Silva... "Malando é malandro, Mané é Mané(Podes crer que é)."


Anita Safer


quarta-feira, 31 de março de 2021

As Flores da Empatia

Foto: Divulgação

Na água lodosa, no Oriente, uma flor consegue brotar. A flor de lótus. Suas raízes estão fincadas na lama, mas ela aparece com toda a sua beleza na superfície aquática. Durante a noite fecha suas pétalas e quando o dia amanhece as abre, mostrando suas cores e beleza. Considerada uma flor sagrada em muitas culturas, símbolo de elevação espiritual, elas hoje estão expostas, em forma de origami, na Unidade Básica 7 de Ceilândia, no Distrito Federal.  

A artista de origami, Ludmila Magalhães, com seu grupo Bem Dobrado, confeccionou mais de cinco mil flores de lótus de origami para homenagear os mortos pela Covid 19. Por coincidência, este foi o número de mortos no DF na ocasião da montagem do painel. Uma forma também de reconhecer o esforço dos profissionais de saúde na luta contra esta doença. O painel foi montado numa U.B.S. onde funciona um posto de vacinação. Além do valor estético, a obra montada é uma representação da empatia que precisamos todos demonstrar aos que perderam a vida e aos seus familiares. 

Assim como a flor emerge no lodo, o carinho e a esperança podem emergir neste momento em que todo o planeta sofre. Para superar, precisamos de amor, de cuidados, de colaboração mútua, da ciência. 

Me sinto honrada e me emociono por ter participado deste projeto. Parabenizo à Lu pela linda iniciativa. Também parabenizo cada pessoa que colabora para que este momento seja menos difícil; doando alimentos aos que necessitam, consolo aos que sofrem, se privando de abraços e presença física para se proteger e proteger aos demais, aos cientistas. 

O I Ching, oráculo secular chinês, sempre diz que precisamos atravessar a grande água, ou seja, superar as dificuldades e seguir em frente. Façamos como a flor de lótus, que atravessa a água para cumprir sua função, tornar este mundo um lugar mais bonito de se viver. 


Anita Safer

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Encontrando meu pai

 Está chegando o dia do aniversário do meu pai. Na verdade é o aniversário terreno dele. Ele mora agora em outro plano. Partiu pra outra jornada quando eu tinha 5 anos. Era muito pequena e não entendia essa passagem. Tenho uma leve lembrança de ter ficado com raiva dele; na minha concepção ele tinha morrido porque queria (nem imaginava o que era o tal do AVC). Como ele se atrevia a sumir e deixar minha mãe chorando e a casa naquela agitação? Estava acostumada com ele sentado na poltrona vermelha, com seu pijama listrado. Pouco importava se ele não falava ou pouco interagia. Era o meu pai e estava ali, onde eu podia brincar perto de seu pé. 

O tempo passa, as fases mudam, a gente vai elaborando aos poucos os acontecimentos de nossa existência. Quando alguém sai de nossa vida é como se faltasse uma peça de um quebra-cabeça. E lembro que tentei completar o jogo através dos sonhos. Sempre o mesmo sonho. Andava por uma casa, que sabia ser minha (era sempre a mesma casa). Fazia o mesmo trajeto e quando chegava em frente à uma cortina de renda eu parava e acordava. Nunca sabia o que estava naquele cômodo, fechado por uma cortina de renda. Com a ajuda de um analista, depois de muita elaboração, cheguei à conclusão de que aquele cômodo representava uma parte desconhecida da minha origem - pois as cortinas de renda me lembravam as casas do meu estado natal. A partir daí fui em busca do meu pai. As coincidências começaram a acontecer e, no final das contas, ele chegou até a mim. Sem saber do que me acontecia, meu irmão trouxe um livro que falava da origem da nossa família, até a chegada do meu pai. Minhas irmãs planejaram uma viagem para o estado onde nascemos. Foi uma viagem mágica. Ouvi muitas histórias sobre ele, sem que eu perguntasse. Então a imagem dele foi se formando. Aos poucos percebi que ele não tinha ido embora. Ele estava me colocando pra dormir andando pela rua perto de casa. Ele era inteligente e discreto. Ajudava muita gente, Gostava de roupas claras e tinha uma linda letra. 

Meu pai sempre esteve aqui. Sua participação na minha vida tinha sido "terceirizada" na minha lembrança. Através do meu irmão Clodo que, na minha lembrança, me levava no colo pra dormir na cama, quando eu já estava adormecida no sofá da sala. Ele demonstrava cuidado e preocupação, sempre. Através do Clésio ele me fazia rir, cantava músicas engraçadas e me levava de carro, acelerando nas tesourinhas, pra que eu risse e esquecesse a dor da antitetânica que havia tomado. O Cli veio concluir esse cerco de afeto já na adolescência. Passou a ser minha referência. Me fez amar o cinema, a escrita jornalística. Seu jeito leve e presente me deixava segura. Ele me via, me enxergava e me valorizava. 

Minha mãe supria tudo o que conseguia e o feminino transbordava na minha vida. Minhas irmãs eram a minha luz. 

Hoje penso sobre uma coisa. Algumas vezes a ausência se faz mais presente que a presença. Agora entendo o porquê. A ausência é uma história inacabada. É como assistir a uma série, ela para de repente e você fica esperando que saia uma nova temporada. Só que nessa série aquele personagem nunca mais aparece e ele era importante para a trama. Mas gosto dessa série. Amo os outros personagens e continuo assistindo e, veja só, protagonizando. E se a ausência está presente, ele está aqui, sempre esteve e sempre estará. Feliz Aniversário para o meu pai. Obrigada por ter voltado pra mim.

domingo, 17 de janeiro de 2021

Cartas para o passado


Um dia desses tive a oportunidade de fazer um contato interessante com uma pessoa que fez parte da minha vida há vinte anos atrás. Esse contato foi através de uma carta, que escrevi pra ela. Lembrei de como ela era na ocasião; seus medos, suas dúvidas, o amor que sentia, o amor que deixara de sentir. Na ocasião, o futuro era incerto, cheio de fantasmas. Quem nunca teve um momento em que a cabeça era como uma mansão mal assombrada, cheia de sustos e aparições? Aquele arrepio na alma, como quando se ouve o estalar de um telhado antigo? Mas, também, quem nunca teve a cabeça povoada de lindos sonhos, planos e desejos? Como se o Universo fosse indicar os melhores caminhos em direção ao tal "final feliz"?
Foi gratificante lembrar a essa pessoa que as coisas mudam, que os desafios podem ser superados, que a gente cresce com as dificuldades e que aprende a valorizar os bons momentos. Ela mudou nesses vinte anos, mas é ainda a mesma. A mesma pessoa, só que transformada. 
Essa pessoa sou eu.
Fui desafiada por uma amiga a escrever uma carta para mim mesma de vinte anos atrás. Ela se inspirou naquela propaganda em que o Rodrigo Santoro escreve cartas para ele jovem e ele jovem escreve cartas para ele mais velho. Mas, como não se inspirar com Rodrigo Santoro, não é mesmo? hahaha.
E se você se desafiasse a fazer esse contato com você de vinte anos atrás... o que diria? O que conseguiu superar, aprender, conquistar? 
A verdade é que faz muito sentido uma frase dita por Heráclito, ou Buda, ou não sei quem (hoje atribuem as frases mais diversas até à Cecília Meireles... vai saber... rsrs)  -  "Nada é permanente, exceto a mudança". 
Você ainda mora no mesmo lugar? Convive com as mesmas pessoas? Realiza as mesmas atividades? Seu corpo ainda guarda as mesmas características? Com certeza nem todas as respostas serão sim. Mas contar para você do passado o que encontrou no futuro pode ser terapêutico. Talvez você perceba que conseguiu chegar até aqui. Que algumas coisas ficaram melhores, outras não, mas que essa é a sua história e de mais ninguém. Você é autor e personagem. O roteiro foi escrito por você, com participação de pessoas que passaram por sua vida e que, com seus atos, alteraram alguns capítulos. Da mesma maneira que você alterou o capítulo de muitas histórias que andam por aí. 
Sua história pode ser um romance, uma tragédia, uma comédia ou drama. No geral é tudo isso, junto e misturado. Mas tudo está em constante mudança e é isso que posso dizer para a pessoa que serei daqui a vinte anos, se tiver a oportunidade de estar lá. Bora escrever mais uns capítulos, mesmo que sejam curtos, até concluir a nossa história.

Anita Safer

sábado, 9 de janeiro de 2021

Geografando

Foto: Cléo Arce

Meu desafio no segundo semestre de 2020 foi estudar Geografia. Achei legal, porque a pandemia não permitiu que eu fizesse coisas que precisasse sair muito de casa. A internet está povoada de vídeos e textos sobre qualquer assunto que a gente quiser, então foi só separar um horário do dia e mandar ver nos estudos. Encontrei até um professor bravo, que parecia estar me vendo e quando eu ia me distraindo, ele gritava: Presta atenção!!! hahaha... era cada susto. E lá fui eu, passeando por planícies e rios, me queimando no interior do planeta. Visitei espaços urbanos e rurais. Esbarrei em fronteiras e sistemas socioeconômicos diversos. As marés subiram e desceram. Os ventos vieram de todas as direções. Lembrei da música Sangue Latino que diz: "Os ventos do norte não movem moinhos"; dizem que é porque o tal do "vento alísio - que é um vento do norte -  perde a força em contato com o ar quente equatorial e não consegue mover moinhos". Achei divertido saber que tem um estádio no Macapá que tem o apelido de Zerão; o apelido é porque a linha do meio de campo coincide com a linha do Equador, ou seja, cada lado do campo fica em um hemisfério... hahaha. 
Mas é incrível como me identifiquei com o planeta, e não só por sermos dois gordinhos. Temos rios (veias), estações (estados de humor), temos nossas fronteiras (limites). Percebo como maltratamos o planeta todos os dias; pensei em como cuido de mim. Sei que deixo a desejar nessa luta individual e coletiva, por melhorar as coisas. 
É incrível como tudo na natureza é muito perfeito, como ela tentou se adaptar às mudanças que sofreu, como o planeta tenta carregar com o mesmo cuidado todas as criaturas - palavras do I Ching, oráculo milenar chinês. Então aprendi com a Geografia que preciso ser mais consciente, que não sou o centro e sim uma pequena parte de um todo. Dependemos uns dos outros e todos de um sistema maior que nós. Quero observar mais as paisagens internas e externas e aprender com elas. Cada desafio que me proponho me abre um horizonte. Por isso quero seguir sorteando desafios da minha caixinha de atividades. Neste semestre vou treinar karatê  e espero estar contando que aprendi algo novo, pois tenho muito o que aprender. Muitas coisas eu sei que ainda não sei.

Anita Safer



quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Casa tatuada - Árvore da (dá) Vida

Foto: Clélia Parreira (Quadro Azulências - Matizes Dumont)



Sabe quando você tem um vínculo de amor muito grande com alguém - ou alguéns...rs - e quer demonstrar esse sentimento? Como representar isso através de um símbolo? Muitas vezes as pessoas fazem uma tatuagem. Isso me fez lembrar de um jovem que queria muito fazer uma tatuagem e sua mãe não deixava de jeito nenhum. Ele fez uma, sem que ela soubesse. Quando ela viu que tinha algo diferente no braço do filho, já preparou o grito, mas ao levantar a manga do braço do garoto, estava tatuado: "Mamãe, te amo!"; com aquele desenho do coração cortado por uma flecha. Ai ai... aí fica difícil exercer a autoridade... haha. Mas foi partindo desse conceito, de simbolizar a união e o amor, que minha irmã sugeriu que pensássemos em algo pra nós. Tatuagem estava fora de questão, porque nossa pele já não tá mais tão firme e a coragem, então... Mas ela, danadinha como é, teve uma ideia linda, delicada, apaixonante. Tatuaríamos nossas casas. Escolheríamos um quadro e colocaríamos uma reprodução desse mesmo quadro em cada casa. Resolvemos escolher uma obra do Matizes Dumont, porque amamos seus bordados e sentimos que um fio nos uniu a eles. De alguma maneira mágica nossas famílias se encontraram num ponto do caminho, o que rendeu arte movida à música e conversas amorosas. Mas são tantos quadros lindos... Como escolher? Olhando as opções com a minha filha, ela viu que em um deles havia crianças em cima de uma árvore. Ela disse: "Voto nesse, vocês todos vieram de uma mesma árvore". Pronto. Era o símbolo que procurávamos. Todos da mesma árvore. Árvore de raízes profundas, da época anterior ainda ao nosso antepassado conhecido na ocasião como "canela de ferro", que chegou ao Piauí e deu sequência à jornada que nos trouxe até aqui. E quantos homens e mulheres passaram por esta árvore. A vida tem seus mistérios e encantos. E não é que são nove crianças na árvore? Assim como somos nove irmãos. Não tínhamos notado isso quando optamos por essa obra. Mas eu acredito nesse Universo que conspira e une pessoas e fatos, que liga a todos num grande e lindo bordado que se chama Vida. Assim completo essa postagem com um trecho da letra de uma música de Edson Gomes, gravada por Elba Ramalho, que diz:

"Ando sobre a terra e vivo sob o sol e as minhas raízes eu balanço... eu balanço... eu balanço..."

 Anita Safer

domingo, 30 de agosto de 2020

Mexericando

 

Foto de Liana Rocha (com Isabela)

Tem coisas que são chatas de fazer na vida, mas são necessárias. Uma delas é fazer exames. E lá fui eu fazer uma endoscopia um dia. Você já fez? Também ficou resistindo quando o anestesista diz... Conte até 10? Eu reluto, pareço criança. Não vou dormir, não vou dormi... não vou dorm... não vou d... Absurdo, ele sempre vence. 

Mas o mais bizarro ainda está por vir. Quando retornei da sedação estava em casa. Estatalada no sofá. Meus filhos às gargalhadas. É muita vulnerabilidade pra uma pessoa só. Eu nem costumo beber pra não sair de mim, se é que é possível a gente sair da gente...rs. Ou será que quando a gente bebe ou está sob efeito de alguma sedação, aí sim, a gente sai de si? Aquela pessoinha nossa que está escondida lá nos confins da alma? Aquela criatura bizarra que faz coisas sem pé nem cabeça sou eu? Ou  sou essa criatura aqui que escreve coisas sem sentido? Eis o que não sei.

Veio então o relato. Meu filho Bruno, que me acompanhou ao exame, disse que quando saímos da clínica - eu meio grogue - pedi que ele comprasse umas mexericas de um vendedor na rua. Ele achou que tava tudo certo, não suspeitava, então, das minhas faculdades mentais. Chegando ao estacionamento,  disse que eu pedi a ele que desse umas mexericas para o guardador de carros e perguntei: Ele ficou feliz? Creio que meu filho ficou meio confuso neste momento, se me levaria pra casa ou se me levaria pra uma clínica psiquiátrica. Mas as pessoas são estranhas, às vezes, e na minha família somos... quase sempre. Embaixo do prédio, diz ele, repeti o ato. Mexericas para o porteiro, seguidas da frase "ele ficou feliz?"... Moça da limpeza com os braços cheios de mexerica ouvindo confusa a pergunta "ela ficou feliz?". Diz ele que foi entre mexericas e votos de felicidade que chegamos em casa e eu desmontei no sofá.

Depois de ficar um pouco indignada com o relato e gargalhadas, fiquei a pensar. Por que, na minha inconsciência, me tornei uma mexeriqueira? kkkk...

A origem da palavra mexericar vem de denunciar, já que a fruta, mexerica, tem um cheiro forte e denuncia quem se delicia com ela. Acho que minha inconsciência mexeriqueira queria denunciar que todas as pessoas deveriam buscar ser felizes. Que essa felicidade saísse pelos poros, que seu aroma ocupasse as ruas, os prédios, a cidade, o mundo... 

Mexeriqueiros do planeta... Isso está cheirando bem... 


Anita Safer

Estantes, ipês e outros pensamentos

 

Foto: Tina Arce

Hoje acordei muito cedo e olhei pela janela. Sempre faço isso quando acordo. É um dos movimentos que me permito fazer nesses tempos de pandemia. Olhando pela janela pensei: "Nossa, o dia hoje tá parecendo uma estante...". Me diverti com a ideia. Devíamos dar nomes aos dias. Talvez letras de música... hoje o dia tá tão "o sol há de brilhar mais uma vez..." - ou nome de alguém, tipo um crush... o dia hoje tá tão fulano de tal, uma corralinda. Acho que essa ideia da estante veio por algumas razões. Uma delas vem das lives e entrevistas da atualidade. Sempre a pessoa está na frente de uma estante e a gente fica na maior curiosidade tentando descobrir os livros que a pessoa tem. Às vezes nem dá pra prestar atenção direito ao que a pessoa tá falando. A conclusão que chego é que vou ter que evitar fazer lives e dar entrevistas, por enquanto, porque não tenho uma estante... hahaha. 

Voltando ao dia, com cara de estante, respirei o ar da manhã e dei de cara com O Ipê Floresce Em Agosto,livro de Lucilia Junqueira de Almeida Prado. Um lindo e amarelo ipê. Diversos deles estão espalhados pela cidade e também nas redes sociais. Eles amam a seca e sorriem. Depois eles  esparramam-se pelos gramados e outros aparecem deslumbrantes - rindo e bordando o chão com suas cores. Me faz pensar nesse momento triste, seco e cheio de restrições e dor que passamos. Se é da natureza florir, contrariando as agruras do tempo, seria da nossa natureza florir um pouco que seja para dar um respiro neste tempo de espera e incertezas? Creio que sim.  #somostodosipês,

Na estante da minha janela também não faltam os pássaros. Não os de Hitchcock, graças ao bom Deus...rs. Mas pássaros diversos que cantam, voam e... seguem sendo pássaros. Eles remetem ao livro de Érico Veríssimo - Olhai Os Lírios Do Campo. Não há lírios em frente à minha janela, infelizmente. Mas os pássaros estão lá e me lembram a parábola do Sermão da Montanha, em que os pássaros estão presentes confiando que estão protegidos e não precisam se preocupar com nada, porque tudo está nas mãos de Deus. No livro de Érico Veríssimo, Olívia tenta convencer Eugênio que ele deve deixar de ser tão ambicioso e prestar atenção às coisas simples da vida, como observar os lírios do campo. Olívia, não tenho lírios, mas tenho pássaros, serve? Sim, serve. Eu pergunto, eu respondo. Afinal, estou só comigo mesma diante desta janela/estante; falando sozinha, nem sequer tenho botões na roupa para falar com eles. 

Na estante imaginária também constam outros livros: Vidas Secas, A Revolução dos Bichos (dedicado ao cachorro interativo do andar de cima)... 

Quero que tudo passe e a gente volte a transitar sem medo pelas ruas, criando novos temas pro livro de nossas vidas. Com todo respeito e admiração por Gabriel Garcia Márquez, não quero viver Cem Anos de Solidão.


Anita Safer