domingo, 4 de julho de 2021

Karatê: Um golpe no sedentarismo


 E lá venho eu com minhas estranhas e maravilhosas manias. Sortear uma atividade nova para fazer. Dessa vez peguei minha caixinha de atividades e pá... tirei um papelzinho... KARATÊ. Lasquei-me. Sabe aquela coisa que você morre de medo de fazer? Pois é. Morria de medo de sortear alguma arte marcial. Se eu tenho medo, por que coloquei na caixinha, você me pergunta? Porque eu não regulo muito bem, essa é a verdade... hahaha. O importante é o desafio. Não tenho histórico de atleta, joguei meu handebolzinho na adolescência, mas só pra não reprovar em Educação Física. 

Mas, vamos lá. Nesse momento fui salva, em função do isolamento social. Aula presencial de karatê, nem pensar! Arrumei uma desculpa perfeita. Mas não quis fugir totalmente da raia, e hoje não temos mais desculpas, tudo se encontra nas mídias. Vou lá procurar um vídeo de aula de karatê online. Achei!

Gente, que surpresa boa, acreditem. E cá estou eu, seis meses depois, tendo treinado três vezes por semana, para dar o meu relato. Encontrei os vídeos do André Maraschin. Minha sala é pequena, mas tudo bem, também tenho braços e pernas curtos. Fiquei encantada com a maneira cuidadosa com que ele ensina. Respeitando as limitações de cada um, afinal, nem todos que assistem aos vídeos têm a ambição de se transformar em um Bruce Lee (mestre das artes marciais, que nem karateca era, parece...rs) - eu até queria, mas minha cara de pau não chega a tanto. E entre chutes e golpes os gatos se assustavam, às vezes, ou ficavam curiosos tentando entender o que a doida estava fazendo. No início tudo doía. Eu andava igual à uma mulher parida. Mas com o tempo fui me sentindo bem e até desejando que chegasse a minha hora de treinar. 

Acho bonito ver alguém que tem a humildade de ensinar o que sabe, no caso do André. E, de certa forma, me orgulho de ser alguém que tem a humildade de aprender. Por isso, prestei muita atenção às coisas que ele dizia, tanto quanto o empenho nos exercícios.

- Ser enérgico,  forte, e ao mesmo tempo, suave;

- O segredo é a repetição para atingir a perfeição (isso vale para tudo na vida!)

- É importante desenvolver as habilidades físicas; (importante para mim, a senhora intelecto...rs)

- Disciplina - fazer o que precisa ser feito;

- A persistência do treino você leva para a vida

Persistência. Uma palavra fraquinha de tudo no meu vocabulário. Mas, veja o que aconteceu. Diminui tremendamente meu vício em refrigerante. O karatê deu um gás pra isso. Entendeu o jogo de palavras? Troquei um gás (do refri) pelo gás que o karatê me deu...rs.

Concluí meu seis meses nessa atividade. Me despeço dela com gratidão. Especialmente ao André Maraschin, que, sem saber, foi meu mestre por todos esses meses. Que ele saiba que sua atividade pode transformar vidas. Agora parto para outra atividade e novos aprendizados. Mas, quem sabe, passada a pandemia, eu procure uma academia e, aí sim, me aguarde, Bruce Lee.


Anita Safer


https://www.youtube.com/user/marascas

segunda-feira, 21 de junho de 2021

 


Estelionato é uma palavra oriunda do termo em latim stellionatu, que significa uma prática criminosa. Desde que o mundo é mundo, os sujeitos dados a essa prática existem. Com o passar do tempo eles vão se aprimorando em seus métodos e hoje estão tecnológicos. Invadem seus celulares, roubam suas senhas. Alguns estão lá, presos nas cadeias do país, mas mesmo assim tocam o terror. Simulam falsos sequestros, deixando as pessoas apavoradas. Há um tempo atrás era comum o golpe do bilhete premiado. Outros vendem casas na praia, ou carros inexistentes. E, para cada golpista, há algum desavisado, que cai em sua lábia ou clica em um link falso. A tentação é grande quando oferecem algum prêmio fácil, grande e miraculoso, que pode te tirar da pindaíba. "Pindaíba", agora entreguei que sou das antigas... hahaha. Esse termo é de 1800 e qualquer coisa e eu continuo usando, só pra passar vergonha. Mas nem todo mundo é descuidado e cai nas manhas desses bons de lábia ou hackers do mal. Dona Maria é uma senhora esperta. Ela nunca estudou e não sabe escrever ou ler. Nenhum A. Nada. Mas o que lhe falta em estudo, sobra em sabedoria. Ela, beirando os 80, na época, ouviu palminhas na porta de sua casa. Morando sozinha, ela foi até lá ver quem era. O rapaz, todo bem vestido, muito simpático, iniciou o diálogo:

- Dona Maria de tal e tal? - perguntou falando seu nome completo. Ela fez que sim com a cabeça. 

Ele então continuou - Sou servidor do INSS e vim aqui para realizar sua prova de vida, para que a senhora não precise se locomover até a agência. Para isso só preciso que a senhora me mostre o seu CPF.

- Peraí que vou buscar o meu CPF, moço - ela disse. E voltou com uma vassoura na mão e deu umas vassouradas no rapaz pra ele deixar de achar que ela era besta. 

- Sou analfabeta mas não sou burra. Acha que não assisto jornal e que sei que não posso passar meu CPF pra qualquer um? - ela me disse, contando o acontecido. 

Depois de reportar o fato à sua filha, foram até o prédio do INSS. Tinham que denunciar a prática criminosa e realizar a tal prova de vida. Quiseram logo falar com o gerente, ou o chefe, ou sabe-se lá quem era o superior da sessão. Ele as atendeu com toda a educação. Mas, o mais curioso de tudo, era que o rapaz denunciado trabalhava mesmo no INSS. Tinha sugerido essa missão para facilitar a vida dos idosos. Uma sugestão nobre e, agora via, extremamente perigosa. O gerente expôs a situação para toda a sua equipe e elogiou a atitude de Dona Maria, que provava para todos que estava muito viva mesmo. E a ideia do nobre rapaz foi descartada, não passou no teste de Dona Maria. Outro exemplo de sabedoria e, pasmem, bom humor, aconteceu um dia desses.

Minha irmã contou, aconteceu com ela. Sei que um golpe desses não é assunto para rir - muitas pessoas são prejudicadas por esse mesmo golpe - mas, este, em especial, teve um desfecho curioso. É o mais comum golpe da atualidade. Eles ligam dizendo que são do seu banco e que alguém fez uma compra indevida em seu nome. O valor é alto, dizem, então precisam recolher seu cartão, para emitir um novo. E, "para sua comodidade", enviarão um funcionário em sua residência para pegar o cartão. Vocês devem conhecer bastante essa prática, é noticiada sempre na TV. Naqueles dias, tinham ligado algumas vezes para minha irmã. Ela até que estava quase acreditando na história, porque é muito convincente mesmo. Até porque eles pedem pra você ligar no número que está em seu cartão bancário, para confirmar que é mesmo do banco. Você liga e cai sabe onde? No contato dos golpistas. Eles conseguem fazer isso, é inacreditável! Por esta razão, quando isto acontece, os delegados dizem que você deve ligar de outro aparelho para o banco, porque eles conseguem puxar a ligação do seu aparelho, de onde falavam com você. Prosseguindo... Minha irmã recebeu outra ligação. Ela já tinha entendido a jogada, estava entediada com a pandemia e resolveu dar trela para a bandida, só pra ter alguém com quem trocar umas ideias. Segue o diálogo:

A golpista: Senhora fulana de tal? Aqui é do seu banco e observamos uma movimentação suspeita em sua conta. - Começou a relatar a moça, com voz de moça bancária, vamos dizer assim.

O conteúdo restante nem vou relatar, vocês já sabem como é. 

Minha irmã respondeu: Nossa, já tentaram esse golpe comigo a semana

passada 

Ela: E a senhora caiu?

Minha irmã: De jeito nenhum, e olha que a outra pessoa era mil vezes melhor que você. 

Ela: A senhora acha que eu tenho que melhorar? Está ruim? 

Minha irmã: Pra ficar ruim falta muito. Moça, só pra acelerar, no final você vai pedir o cartão, não é? Vamos marcar?

Ela, por fim: Eu não, pra senhora chamar a polícia? E desligou rapidamente o telefone. 

Ri muito dessa história. Como canta lindamente Diogo Nogueira - com seus belos olhos verdes a música de Bezerra da Silva... "Malando é malandro, Mané é Mané(Podes crer que é)."


Anita Safer


quarta-feira, 31 de março de 2021

As Flores da Empatia

Foto: Divulgação

Na água lodosa, no Oriente, uma flor consegue brotar. A flor de lótus. Suas raízes estão fincadas na lama, mas ela aparece com toda a sua beleza na superfície aquática. Durante a noite fecha suas pétalas e quando o dia amanhece as abre, mostrando suas cores e beleza. Considerada uma flor sagrada em muitas culturas, símbolo de elevação espiritual, elas hoje estão expostas, em forma de origami, na Unidade Básica 7 de Ceilândia, no Distrito Federal.  

A artista de origami, Ludmila Magalhães, com seu grupo Bem Dobrado, confeccionou mais de cinco mil flores de lótus de origami para homenagear os mortos pela Covid 19. Por coincidência, este foi o número de mortos no DF na ocasião da montagem do painel. Uma forma também de reconhecer o esforço dos profissionais de saúde na luta contra esta doença. O painel foi montado numa U.B.S. onde funciona um posto de vacinação. Além do valor estético, a obra montada é uma representação da empatia que precisamos todos demonstrar aos que perderam a vida e aos seus familiares. 

Assim como a flor emerge no lodo, o carinho e a esperança podem emergir neste momento em que todo o planeta sofre. Para superar, precisamos de amor, de cuidados, de colaboração mútua, da ciência. 

Me sinto honrada e me emociono por ter participado deste projeto. Parabenizo à Lu pela linda iniciativa. Também parabenizo cada pessoa que colabora para que este momento seja menos difícil; doando alimentos aos que necessitam, consolo aos que sofrem, se privando de abraços e presença física para se proteger e proteger aos demais, aos cientistas. 

O I Ching, oráculo secular chinês, sempre diz que precisamos atravessar a grande água, ou seja, superar as dificuldades e seguir em frente. Façamos como a flor de lótus, que atravessa a água para cumprir sua função, tornar este mundo um lugar mais bonito de se viver. 


Anita Safer

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Encontrando meu pai

 Está chegando o dia do aniversário do meu pai. Na verdade é o aniversário terreno dele. Ele mora agora em outro plano. Partiu pra outra jornada quando eu tinha 5 anos. Era muito pequena e não entendia essa passagem. Tenho uma leve lembrança de ter ficado com raiva dele; na minha concepção ele tinha morrido porque queria (nem imaginava o que era o tal do AVC). Como ele se atrevia a sumir e deixar minha mãe chorando e a casa naquela agitação? Estava acostumada com ele sentado na poltrona vermelha, com seu pijama listrado. Pouco importava se ele não falava ou pouco interagia. Era o meu pai e estava ali, onde eu podia brincar perto de seu pé. 

O tempo passa, as fases mudam, a gente vai elaborando aos poucos os acontecimentos de nossa existência. Quando alguém sai de nossa vida é como se faltasse uma peça de um quebra-cabeça. E lembro que tentei completar o jogo através dos sonhos. Sempre o mesmo sonho. Andava por uma casa, que sabia ser minha (era sempre a mesma casa). Fazia o mesmo trajeto e quando chegava em frente à uma cortina de renda eu parava e acordava. Nunca sabia o que estava naquele cômodo, fechado por uma cortina de renda. Com a ajuda de um analista, depois de muita elaboração, cheguei à conclusão de que aquele cômodo representava uma parte desconhecida da minha origem - pois as cortinas de renda me lembravam as casas do meu estado natal. A partir daí fui em busca do meu pai. As coincidências começaram a acontecer e, no final das contas, ele chegou até a mim. Sem saber do que me acontecia, meu irmão trouxe um livro que falava da origem da nossa família, até a chegada do meu pai. Minhas irmãs planejaram uma viagem para o estado onde nascemos. Foi uma viagem mágica. Ouvi muitas histórias sobre ele, sem que eu perguntasse. Então a imagem dele foi se formando. Aos poucos percebi que ele não tinha ido embora. Ele estava me colocando pra dormir andando pela rua perto de casa. Ele era inteligente e discreto. Ajudava muita gente, Gostava de roupas claras e tinha uma linda letra. 

Meu pai sempre esteve aqui. Sua participação na minha vida tinha sido "terceirizada" na minha lembrança. Através do meu irmão Clodo que, na minha lembrança, me levava no colo pra dormir na cama, quando eu já estava adormecida no sofá da sala. Ele demonstrava cuidado e preocupação, sempre. Através do Clésio ele me fazia rir, cantava músicas engraçadas e me levava de carro, acelerando nas tesourinhas, pra que eu risse e esquecesse a dor da antitetânica que havia tomado. O Cli veio concluir esse cerco de afeto já na adolescência. Passou a ser minha referência. Me fez amar o cinema, a escrita jornalística. Seu jeito leve e presente me deixava segura. Ele me via, me enxergava e me valorizava. 

Minha mãe supria tudo o que conseguia e o feminino transbordava na minha vida. Minhas irmãs eram a minha luz. 

Hoje penso sobre uma coisa. Algumas vezes a ausência se faz mais presente que a presença. Agora entendo o porquê. A ausência é uma história inacabada. É como assistir a uma série, ela para de repente e você fica esperando que saia uma nova temporada. Só que nessa série aquele personagem nunca mais aparece e ele era importante para a trama. Mas gosto dessa série. Amo os outros personagens e continuo assistindo e, veja só, protagonizando. E se a ausência está presente, ele está aqui, sempre esteve e sempre estará. Feliz Aniversário para o meu pai. Obrigada por ter voltado pra mim.

domingo, 17 de janeiro de 2021

Cartas para o passado


Um dia desses tive a oportunidade de fazer um contato interessante com uma pessoa que fez parte da minha vida há vinte anos atrás. Esse contato foi através de uma carta, que escrevi pra ela. Lembrei de como ela era na ocasião; seus medos, suas dúvidas, o amor que sentia, o amor que deixara de sentir. Na ocasião, o futuro era incerto, cheio de fantasmas. Quem nunca teve um momento em que a cabeça era como uma mansão mal assombrada, cheia de sustos e aparições? Aquele arrepio na alma, como quando se ouve o estalar de um telhado antigo? Mas, também, quem nunca teve a cabeça povoada de lindos sonhos, planos e desejos? Como se o Universo fosse indicar os melhores caminhos em direção ao tal "final feliz"?
Foi gratificante lembrar a essa pessoa que as coisas mudam, que os desafios podem ser superados, que a gente cresce com as dificuldades e que aprende a valorizar os bons momentos. Ela mudou nesses vinte anos, mas é ainda a mesma. A mesma pessoa, só que transformada. 
Essa pessoa sou eu.
Fui desafiada por uma amiga a escrever uma carta para mim mesma de vinte anos atrás. Ela se inspirou naquela propaganda em que o Rodrigo Santoro escreve cartas para ele jovem e ele jovem escreve cartas para ele mais velho. Mas, como não se inspirar com Rodrigo Santoro, não é mesmo? hahaha.
E se você se desafiasse a fazer esse contato com você de vinte anos atrás... o que diria? O que conseguiu superar, aprender, conquistar? 
A verdade é que faz muito sentido uma frase dita por Heráclito, ou Buda, ou não sei quem (hoje atribuem as frases mais diversas até à Cecília Meireles... vai saber... rsrs)  -  "Nada é permanente, exceto a mudança". 
Você ainda mora no mesmo lugar? Convive com as mesmas pessoas? Realiza as mesmas atividades? Seu corpo ainda guarda as mesmas características? Com certeza nem todas as respostas serão sim. Mas contar para você do passado o que encontrou no futuro pode ser terapêutico. Talvez você perceba que conseguiu chegar até aqui. Que algumas coisas ficaram melhores, outras não, mas que essa é a sua história e de mais ninguém. Você é autor e personagem. O roteiro foi escrito por você, com participação de pessoas que passaram por sua vida e que, com seus atos, alteraram alguns capítulos. Da mesma maneira que você alterou o capítulo de muitas histórias que andam por aí. 
Sua história pode ser um romance, uma tragédia, uma comédia ou drama. No geral é tudo isso, junto e misturado. Mas tudo está em constante mudança e é isso que posso dizer para a pessoa que serei daqui a vinte anos, se tiver a oportunidade de estar lá. Bora escrever mais uns capítulos, mesmo que sejam curtos, até concluir a nossa história.

Anita Safer

sábado, 9 de janeiro de 2021

Geografando

Foto: Cléo Arce

Meu desafio no segundo semestre de 2020 foi estudar Geografia. Achei legal, porque a pandemia não permitiu que eu fizesse coisas que precisasse sair muito de casa. A internet está povoada de vídeos e textos sobre qualquer assunto que a gente quiser, então foi só separar um horário do dia e mandar ver nos estudos. Encontrei até um professor bravo, que parecia estar me vendo e quando eu ia me distraindo, ele gritava: Presta atenção!!! hahaha... era cada susto. E lá fui eu, passeando por planícies e rios, me queimando no interior do planeta. Visitei espaços urbanos e rurais. Esbarrei em fronteiras e sistemas socioeconômicos diversos. As marés subiram e desceram. Os ventos vieram de todas as direções. Lembrei da música Sangue Latino que diz: "Os ventos do norte não movem moinhos"; dizem que é porque o tal do "vento alísio - que é um vento do norte -  perde a força em contato com o ar quente equatorial e não consegue mover moinhos". Achei divertido saber que tem um estádio no Macapá que tem o apelido de Zerão; o apelido é porque a linha do meio de campo coincide com a linha do Equador, ou seja, cada lado do campo fica em um hemisfério... hahaha. 
Mas é incrível como me identifiquei com o planeta, e não só por sermos dois gordinhos. Temos rios (veias), estações (estados de humor), temos nossas fronteiras (limites). Percebo como maltratamos o planeta todos os dias; pensei em como cuido de mim. Sei que deixo a desejar nessa luta individual e coletiva, por melhorar as coisas. 
É incrível como tudo na natureza é muito perfeito, como ela tentou se adaptar às mudanças que sofreu, como o planeta tenta carregar com o mesmo cuidado todas as criaturas - palavras do I Ching, oráculo milenar chinês. Então aprendi com a Geografia que preciso ser mais consciente, que não sou o centro e sim uma pequena parte de um todo. Dependemos uns dos outros e todos de um sistema maior que nós. Quero observar mais as paisagens internas e externas e aprender com elas. Cada desafio que me proponho me abre um horizonte. Por isso quero seguir sorteando desafios da minha caixinha de atividades. Neste semestre vou treinar karatê  e espero estar contando que aprendi algo novo, pois tenho muito o que aprender. Muitas coisas eu sei que ainda não sei.

Anita Safer



quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Casa tatuada - Árvore da (dá) Vida

Foto: Clélia Parreira (Quadro Azulências - Matizes Dumont)



Sabe quando você tem um vínculo de amor muito grande com alguém - ou alguéns...rs - e quer demonstrar esse sentimento? Como representar isso através de um símbolo? Muitas vezes as pessoas fazem uma tatuagem. Isso me fez lembrar de um jovem que queria muito fazer uma tatuagem e sua mãe não deixava de jeito nenhum. Ele fez uma, sem que ela soubesse. Quando ela viu que tinha algo diferente no braço do filho, já preparou o grito, mas ao levantar a manga do braço do garoto, estava tatuado: "Mamãe, te amo!"; com aquele desenho do coração cortado por uma flecha. Ai ai... aí fica difícil exercer a autoridade... haha. Mas foi partindo desse conceito, de simbolizar a união e o amor, que minha irmã sugeriu que pensássemos em algo pra nós. Tatuagem estava fora de questão, porque nossa pele já não tá mais tão firme e a coragem, então... Mas ela, danadinha como é, teve uma ideia linda, delicada, apaixonante. Tatuaríamos nossas casas. Escolheríamos um quadro e colocaríamos uma reprodução desse mesmo quadro em cada casa. Resolvemos escolher uma obra do Matizes Dumont, porque amamos seus bordados e sentimos que um fio nos uniu a eles. De alguma maneira mágica nossas famílias se encontraram num ponto do caminho, o que rendeu arte movida à música e conversas amorosas. Mas são tantos quadros lindos... Como escolher? Olhando as opções com a minha filha, ela viu que em um deles havia crianças em cima de uma árvore. Ela disse: "Voto nesse, vocês todos vieram de uma mesma árvore". Pronto. Era o símbolo que procurávamos. Todos da mesma árvore. Árvore de raízes profundas, da época anterior ainda ao nosso antepassado conhecido na ocasião como "canela de ferro", que chegou ao Piauí e deu sequência à jornada que nos trouxe até aqui. E quantos homens e mulheres passaram por esta árvore. A vida tem seus mistérios e encantos. E não é que são nove crianças na árvore? Assim como somos nove irmãos. Não tínhamos notado isso quando optamos por essa obra. Mas eu acredito nesse Universo que conspira e une pessoas e fatos, que liga a todos num grande e lindo bordado que se chama Vida. Assim completo essa postagem com um trecho da letra de uma música de Edson Gomes, gravada por Elba Ramalho, que diz:

"Ando sobre a terra e vivo sob o sol e as minhas raízes eu balanço... eu balanço... eu balanço..."

 Anita Safer

domingo, 30 de agosto de 2020

Mexericando

 

Foto de Liana Rocha (com Isabela)

Tem coisas que são chatas de fazer na vida, mas são necessárias. Uma delas é fazer exames. E lá fui eu fazer uma endoscopia um dia. Você já fez? Também ficou resistindo quando o anestesista diz... Conte até 10? Eu reluto, pareço criança. Não vou dormir, não vou dormi... não vou dorm... não vou d... Absurdo, ele sempre vence. 

Mas o mais bizarro ainda está por vir. Quando retornei da sedação estava em casa. Estatalada no sofá. Meus filhos às gargalhadas. É muita vulnerabilidade pra uma pessoa só. Eu nem costumo beber pra não sair de mim, se é que é possível a gente sair da gente...rs. Ou será que quando a gente bebe ou está sob efeito de alguma sedação, aí sim, a gente sai de si? Aquela pessoinha nossa que está escondida lá nos confins da alma? Aquela criatura bizarra que faz coisas sem pé nem cabeça sou eu? Ou  sou essa criatura aqui que escreve coisas sem sentido? Eis o que não sei.

Veio então o relato. Meu filho Bruno, que me acompanhou ao exame, disse que quando saímos da clínica - eu meio grogue - pedi que ele comprasse umas mexericas de um vendedor na rua. Ele achou que tava tudo certo, não suspeitava, então, das minhas faculdades mentais. Chegando ao estacionamento,  disse que eu pedi a ele que desse umas mexericas para o guardador de carros e perguntei: Ele ficou feliz? Creio que meu filho ficou meio confuso neste momento, se me levaria pra casa ou se me levaria pra uma clínica psiquiátrica. Mas as pessoas são estranhas, às vezes, e na minha família somos... quase sempre. Embaixo do prédio, diz ele, repeti o ato. Mexericas para o porteiro, seguidas da frase "ele ficou feliz?"... Moça da limpeza com os braços cheios de mexerica ouvindo confusa a pergunta "ela ficou feliz?". Diz ele que foi entre mexericas e votos de felicidade que chegamos em casa e eu desmontei no sofá.

Depois de ficar um pouco indignada com o relato e gargalhadas, fiquei a pensar. Por que, na minha inconsciência, me tornei uma mexeriqueira? kkkk...

A origem da palavra mexericar vem de denunciar, já que a fruta, mexerica, tem um cheiro forte e denuncia quem se delicia com ela. Acho que minha inconsciência mexeriqueira queria denunciar que todas as pessoas deveriam buscar ser felizes. Que essa felicidade saísse pelos poros, que seu aroma ocupasse as ruas, os prédios, a cidade, o mundo... 

Mexeriqueiros do planeta... Isso está cheirando bem... 


Anita Safer

Estantes, ipês e outros pensamentos

 

Foto: Tina Arce

Hoje acordei muito cedo e olhei pela janela. Sempre faço isso quando acordo. É um dos movimentos que me permito fazer nesses tempos de pandemia. Olhando pela janela pensei: "Nossa, o dia hoje tá parecendo uma estante...". Me diverti com a ideia. Devíamos dar nomes aos dias. Talvez letras de música... hoje o dia tá tão "o sol há de brilhar mais uma vez..." - ou nome de alguém, tipo um crush... o dia hoje tá tão fulano de tal, uma corralinda. Acho que essa ideia da estante veio por algumas razões. Uma delas vem das lives e entrevistas da atualidade. Sempre a pessoa está na frente de uma estante e a gente fica na maior curiosidade tentando descobrir os livros que a pessoa tem. Às vezes nem dá pra prestar atenção direito ao que a pessoa tá falando. A conclusão que chego é que vou ter que evitar fazer lives e dar entrevistas, por enquanto, porque não tenho uma estante... hahaha. 

Voltando ao dia, com cara de estante, respirei o ar da manhã e dei de cara com O Ipê Floresce Em Agosto,livro de Lucilia Junqueira de Almeida Prado. Um lindo e amarelo ipê. Diversos deles estão espalhados pela cidade e também nas redes sociais. Eles amam a seca e sorriem. Depois eles  esparramam-se pelos gramados e outros aparecem deslumbrantes - rindo e bordando o chão com suas cores. Me faz pensar nesse momento triste, seco e cheio de restrições e dor que passamos. Se é da natureza florir, contrariando as agruras do tempo, seria da nossa natureza florir um pouco que seja para dar um respiro neste tempo de espera e incertezas? Creio que sim.  #somostodosipês,

Na estante da minha janela também não faltam os pássaros. Não os de Hitchcock, graças ao bom Deus...rs. Mas pássaros diversos que cantam, voam e... seguem sendo pássaros. Eles remetem ao livro de Érico Veríssimo - Olhai Os Lírios Do Campo. Não há lírios em frente à minha janela, infelizmente. Mas os pássaros estão lá e me lembram a parábola do Sermão da Montanha, em que os pássaros estão presentes confiando que estão protegidos e não precisam se preocupar com nada, porque tudo está nas mãos de Deus. No livro de Érico Veríssimo, Olívia tenta convencer Eugênio que ele deve deixar de ser tão ambicioso e prestar atenção às coisas simples da vida, como observar os lírios do campo. Olívia, não tenho lírios, mas tenho pássaros, serve? Sim, serve. Eu pergunto, eu respondo. Afinal, estou só comigo mesma diante desta janela/estante; falando sozinha, nem sequer tenho botões na roupa para falar com eles. 

Na estante imaginária também constam outros livros: Vidas Secas, A Revolução dos Bichos (dedicado ao cachorro interativo do andar de cima)... 

Quero que tudo passe e a gente volte a transitar sem medo pelas ruas, criando novos temas pro livro de nossas vidas. Com todo respeito e admiração por Gabriel Garcia Márquez, não quero viver Cem Anos de Solidão.


Anita Safer

sábado, 30 de maio de 2020

Saudade do calor, né, minha filha?

São sete horas da manhã. Já estou de pé. Por que, meu Deus do céu? O dia será longo e não há tanto assim a ser feito. O pão de leite comprado ontem grita por um café. Como negar? Mas o café quente, especialista em esquentar a alma não surte efeito. Tudo porque uma frente fria, vinda sei lá de onde, bate de frente com meu DNA nordestino, que é todo trabalhado no calor. Resolvo então voltar pra cama. Ninguém precisa saber, né? Dormir mais um pouquinho não fará diferença no andar lento do dia. Cama tá ok. Coberta tá ok. Mas o sono não vem. Então pego o livro e alterno suas folhas com as mensagens que chegam. Respondo, volto, leio. "dingling"... outra mensagem, respondo, volto, leio. Nas páginas do livro o Dr Macbeth acorda meio sem saber quem é e onde está. Aquela sensação que todos temos às vezes, especialmente quando dormimos fora de hora. Ele é psiquiatra, deve entender melhor essas coisas... "dingling"... Preciso levantar às 11 horas pra fazer almoço. Meu DNA continua lutando com o frio. Preciso agir. Não posso passar o dia deitada, lendo e trocando mensagens debaixo do cobertor quentinho e macio. Ahhhh... que delícia. Tá. Posso, mas o almoço precisa de um apoio pra acontecer. Depois de muito relutar resolvo tomar um banho. Entre tirar a roupa e entrar debaixo do chuveiro o tempo parece longo, mas me apresso, como se minha vida dependesse dessa pressa. Pronto! A água quente começa a escorrer pelo meu corpo. Aos poucos vou me reconhecendo; como o doutor do livro começa a se ambientar com o quarto do hotel. Essa sou eu, a mulher que veio do calor. Minha mente começa a se agitar e me imagino sendo uma sereia que vive em uma piscina em Caldas Novas, ou quem sabe na Pousada do Rio Quente (nunca fui nessa pousada, mas com esse nome deve ser uma maravilha!). Quero eternizar esse momento. Viveria pra sempre dentro desse banheiro, esfumaçado, reconfortante. Ficaria assim, mas sou defensora do controle do uso da água.
Essa ambientalista que vive em mim não permite negociação. Com muito custo e relutância desligo o chuveiro. Agora que tomei posse de quem sou posso voltar minha atenção às coisas do dia. Quem sabe mais tarde retorno à cama, à coberta, ao livro... "dingling"...

Anita Safer